4 de junho de 2017

Não há nenhum caminho para o passado

Não há nenhum caminho para o passado. O passado são todos os sítios onde nunca estivemos. Sento-me aqui sozinho, a meu lado, como se estivesse na estação à espera do comboio e da tua chegada. Quando tu és presente desde sempre e muito para além disso, sem viagem de regresso. Temos as mãos dadas sempre para diante, como a fortaleza do molhe que espera pela vaga seguinte e pelo próximo embate. De nada importam os danos causados pelos temporais que ainda não houve, são ondas que não fazem a preia-mar. Não fazem transbordar os rios, não são desejos de fim de tarde.



Há apenas uma nostalgia breve em dizer-te que me fazes falta. Esta falta para diante, porque ela é a nossa presença. E tu estás aqui comigo, como se fossemos todo o tempo que o planeta tem para chegarmos ao sol. Seja a que velocidade for, o tempo é a coisa que mais possuímos, a que mais se nos liberta das intenções e do sonho. E o sonho é sempre este desejo fremente, carregado de madrugada e da certeza arenosa do deserto que está por desvendar. E no deserto somos tudo, sem mais vida do que a nossa, somos inteiros e completos. Pertencemo-nos, e sabemo-lo sem outro caminho.

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