27 de maio de 2017

No tempo em que celebravam o dia dos meus anos

No tempo em que celebravam o dia dos meus anos
Ainda eu não tinha nascido,
Ainda o novo testamento aguardava por ser escrito
E Jesus Cristo ia de sacola ao ombro
A caminho da escola
Porque já havia abecedário.
Não se sabe como nem quando
O sol surgiu no meio do nada para criar a noite
E o filho dela se fez luz e dia e descoberta.
Foram inventadas as montanhas
De cujos cumes brotaram as pedras soltas e as nascentes,
e os declives e os rios e as águas correntes.
Foi de certeza Van Gogh o primeiro homem,
Criado para descobrir as cores e as tintas e os pincéis,
Para pintar de azul todo o céu redondo
E todos os mares líquidos sem barcos,
Sem que houvesse maçãs ou paraíso,
Para que fosse tempo do degelo e pudesse surgir a Primavera
Carregada da vida vermelha e breve das papoilas.
Só depois Picasso terá pintado a Guernica
E inventado a pólvora
Para que o homem sentisse a força da tragédia
e a necessidade da guerra,
Ao mesmo tempo que as andorinhas construíam os ninhos nos beirais
E as cegonhas tratavam das crias no alto dos pinheiros.
Só mais tarde sobrou tempo para os deuses,
Quando o homem se julgou ser superior a todos eles
Passou a adorá-los e escreveu orações e ritos para os celebrar.
E se sentou à mesa do jantar
Pronto para repartir o mundo e desenhar países e fronteiras,
Inventou recursos,
Descobriu o fogo,
Fundiu o ferro para fazer colares para as mulheres
e metralha para os estilhaços.

E quis só para si todo o pão que estava sobre a mesa.

[Papoilas, de Van Gogh]

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