23 de junho de 2017

Real academia

Nesta vasta e erudita academia de iletrados
Há mais inspirados poetas que leitores
Há perfeitos sonetos mal acabados
E há até curiosos e universitários doutores

Publicam-se em redondilha quadras soltas
Escrevem-se livros com sentir e mais mensagem
Aos dicionários dão-se voltas e mais voltas
Na árdua busca da mais folclórica linguagem

Alguns versos de pé mais partido que quebrado
À mistura com erros de estilo e de infiel ortografia
E temos o perfil do poeta bem preparado
Para ser mais um ilustre membro da academia

Com cadeira e assento fixo, lugar numerado
E o alto prestígio de um muito defunto patrono
Já o poeta pode ser sustenido ou elevado
À sublime condição de rei sem trono.

Voa alta a muito divina inspiração
Vem a música suave, o ritmo e a melodia
Logo a seguir, bem expressivo, vem o refrão
E, a muitas vozes, o coro afinado da sacristia.

É o erudito académico muito solicitado
Para cultos saraus e muitas entrevistas
Poemas seus incluídos nas páginas das selectas
E o seu retrato oficial enche a capa de revistas

Agenda cheia, profere palestras, dá conferências
Enverga pronto-a-vestir, fato à medida, usa gravata
As salas cheias do aplauso de ilustres assistências
E é a crónica social que com rigor para todos o relata

Alcançada a pouca fama, por acréscimo vem a glória
A sempre curta fortuna dos concursos e dos prémios
A bandeira desfraldada e colorida da vitória
E o olimpo sempre baixo que apenas cabe aos génios.

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