29 de junho de 2005

Avenida dos Aliados

O Porto tem perseguido, com afinco, a qualificação como capital nacional do disparate. E o que choca é verificar que, face à intensificação dos esforços, está cada vez mais próximo do reconhecimento e do sucesso. Felizmente as cidades - mesmo a antiga, mui nobre e sempre leal e invicta! - não podem nunca confundir-se com os homens ou com as mulheres que, transitoriamente, abraçam a roda do leme e as dirigem. São apenas situações de passagem que deixam cicatrizes e que, desgraçadamente, se repetem cada vez com maior frequência e tendem para a eternização.

Além Douro o Porto tem, de longa data, a fama de cidade de província, de clima agreste e aspecto triste, patente nas frontarias de granito descuidado e sujo, de onde muitas vezes provêm indivíduos de aspecto estranho e camisas de flanela aos quadrados, parecendo antigos pescadores da Póvoa. Onde um café, que se está mesma a ver que é uma bica, se designa intrincadamente por cimbalino. Até a pronúncia do norte, para além da canção com o mesmo nome, é diferente e tema de descabelado gozo.

É extensa a lista de obras dispendiosas e inúteis que, a bem da comissão e do provento, têm sido promovidas na cidade nos últimos anos. Depois do 25 de Abril o primeiro presidente da Câmara que foi reeleito após um primeiro mandato foi o Dr. Fernando Gomes, imposto pelo Partido Socialista, com o beneplácito do vitalício vereador Gaspar e importado da foz do rio Ave. E viu-se no que deu porque deveria ter sido mandado para casa, para o Parlamento Europeu ou para o Ministério da Administração Interna logo que esse primeiro mandato terminou.

O Dr. Rio, passados quase quatro anos, ainda não sabe quais as obtusas razões que levaram à sua eleição, ele que nunca pensou sê-lo. Mas, investido no cargo, passou a sentir-se predestinado para ele e inspirado pelas mais diversas divindades para o exercício das funções. Não se sentiu e não se sente ao serviço nem da cidade, nem do eleitorado. Porque nenhum político, mesmo que regional e transitório, alguma vez se sentiu ao serviço fosse de quem fosse, a não ser o dele próprio. Vai daí sente-se assim um género de régulo, pequeno reizinho de uma qualquer tribo africana, com poderes absolutos que, por má imagem, apenas não permite o enforcamento dos profissionais do contra na Praça da Liberdade.

Mas permite decidir tudo, mesmo irracionalmente, ao arrepio de todos e de toda a gente. O que se passa com o túnel de Ceuta não é exemplo de nada. É apenas mais um caso com enredo suficiente para uma das escabrosas histórias do Sr. José Vilhena. O Dr. Rio, julgando cada portuense como um atrasado mental, manda afixar painéis de grandes dimensões e proclama que a obra se não acaba por simples birra da ministra, no decurso de um período menstrual. Esperando-se que o embargo apenas seja levantado com a menopausa! Como se alguém pudesse entender que uma obra fosse sendo feita sem se saber que seria mais que um buraco. Depois logo se veria onde daria mais jeito que voltasse à superfície. Directamente no parque de estacionamento subterrâneo a construir em frente aos Paços do Concelho. Com acesso directo aos serviços de urgência do Hospital de Santo António ou ao gabinete do desembargador de turno no Palácio da Justiça. Mesmo em frente ao Palácio dos Carrancas, com entrada directa para os salões de exposição. Convenientemente em frente à residência do próprio Dr. Rio, com corredor para peões e para bicicletas, prevenindo a circulação de caninos e de crianças.

De há uns tempos que se discute aquilo a que o Dr. Rio chama a requalificação da Avenida dos Aliados. A Avenida dos Aliados, pela sua génese e tal como está, foi já suficiente motivo de chacota ao ser apelidada de avenida do bacalhau. O Sr. Germano Silva prestaria mais um inestimável serviço à cidade se lho explicasse e lhe dissesse porque é que os Paços do Concelho estão onde estão e a igreja da Ordem da Trindade se mantém naquele local. E, já agora, tentasse que o Dr. Rio entendesse que três toneladas de granito e uma dúzia de eucaliptos não restituem vida a coisa nenhuma como ele julga. Mesmo que os calceteiros, ou trolhas, ou lá o que é, se chamem Siza Vieira e Souto Moura, sejam filhos prendados de cidadãos ilustres e detenham prémios e condecorações de todas as proveniências.

Detenho-me nas duas folhas que retiro do "site" da Câmara do Porto e, mais do que com os bonecos, preocupo-me com as palavras. Pouco com as do Dr. Rio que anuncia gostar de partilhar comigo uma boa notícia. Como um bruxo africano com anúncio permanente nas páginas do 24 Horas deverá querer comunicar-me os números do último sorteio do euromilhões e, para meu bem, solicitar que vote nele nas próximas autárquicas. Um pouco mais com as subscritas por Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura. Desde logo porque começam por referir que o projecto para a Avenida dos Aliados surge da necessidade de reconstruir o lugar de três estações do metropolitano contíguas: São Bento, Aliados e Trindade. Ainda estou para perceber que razão esotérica justificou e que aturados estudos determinaram a implantação de uma estação nos Aliados, alguns 300 metros abaixo da Trindade. Para além de tão ilustres profissionais do risco não dizerem se os eucaliptos, quando adultos, poderão ser abatidos e remetidos à fábrica de celulose de Cacia ou se alguém, sorrateiramente, deverá atear-lhes fogo no pino de um Verão qualquer.

Não ficaria de consciência tranquila, a sério, se aqui não referisse o persistente esforço de Manuela Ramos e de Tiago Fernandes na defesa de património colectivo que os profissionais da política, ainda mais do que os do contra, são incapazes de reconhecer. Mesmo que sejam capazes de o trocar por meia dúzia de patacos, uma carrada de tijolo burro e meia tonelada de cimento a granel. Para betão!

10 Comentários:

Às 4:42 da tarde , Blogger manueladlramos disse...

Os meus agradecimentos pela referência mas preferia sinceramente que o meu nome não aparecesse tão destacado! Nascida e criada perto do Carregal,amo o Porto antigo com todo o meu coração (e intelecto ;-) e não me conformo com a destruição "inqualificável" que sobranceiramente estão a impor ao centro da cidade. Mas felizmente não sou a única e neste momento apenas sou uma das algumas faces mais visiveis (pela disponibilidade e apetência para "blogar") de um numeroso grupo de pessoas que se tem mexido e falado e escrito (alias com uma qualidade excepcional) sobre o assunto. Eu tenho-me limitado a facilitar o acesso a essa informação com todo o meu empenho. Em breve surgirão muitos mais nomes, melhores e muito mais valorosos que eu.
Bem hajam!

 
Às 6:15 da tarde , Blogger LFV disse...

Melhor ainda que seja assim. Que partamos para as tarefas humildes e lúcidos. Que consigamos mobilizar a lucidez e a sapiência. E nos mantenhamos como partimos. Simplesmente humildes e lúcidos. Mas também tranquilos e conscientes. Força! Algum dia o bom senso há-de vencer.

 
Às 11:32 da manhã , Blogger AM disse...

Brilhante "post".
Parabéns pela lucidez e talento.

AMNM

 
Às 4:59 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Realmente este post é pouco sério. Claro que o autor está no direito de discordar de algumas opções tomadas recentemente para o Porto. Eu também não gosto de tudo, mas depois da destruição do património cultural e natural da cidade que foi a Porto 2001 (ver o que fizeram da Cordoaria e da Praça dos Leões e do próprio Túnel de Ceuta) era muito importante que se começassem a tapar dfinitivamente estes buracos. O que nasce torto nunca se endireita, é o que se pode dizer do Túnel de Ceuta.
Agora não tem o direito de chamar estúpidos aos portuenses, nem aos autores de algumas das maiores obras da arquitectura portuguesa.
Tem mesmo a certeza que vão plantar eucaliptos ou é só uma frase para tirar efeitos retóricos? Não está a ser sério.
José manuel

 
Às 5:02 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Só não compreendo porque algumas almas tão preocupadas com os canteiros da Av. dos Aliados nada fizeram para travar a destruição de um jardim histórico, emblemático dum período aureo da nossa cidade do Porto como foi o caso da Cordoaria. Hoje é apenas uma coisa inclassificável.
José Manuel

 
Às 10:34 da manhã , Blogger manueladlramos disse...

E o Sr. José fez?
As pessoas fazem o que podem na altura que podem! Isto de nos (me, porque falo por mim) perguntarem porque nesta altura não fizemos isto e aquilo é realmente desconcertante. O sr o que é que pensa que eu sou? Alguma opositora profissional? E aliás nessa altura (2001) a cidade confiou ... e algumas coisas que se salvaram parcialmente, como por exemplo a av. de Montevideu foi justamente devido à iniciativa de alguns cidadão.

 
Às 11:10 da manhã , Blogger LFV disse...

Cara Manuela,

Ignorei deliberamente o anónimo José Manuel - que até pode ser a Maria Rueff! - e os comentários que fez. apenas porque anónimo, em minha opinião, não dá para perder tempo. Mantenha-se sensata e determinada: há coisas bem mais importantes em que se empenha e que todos lhe devemos. O resto reduz-me a uma expressão simples e antiga: os cães ladram e a caravana passa.

 
Às 1:10 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

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