28 de junho de 2005

Manutenção dos semáforos

Antigamente Portugal era o país do Entroncamento e o Entroncamento era a terra dos fenómenos. Ali cresciam nabos maiores do que os que fazem a sopa de Gondomar, abóboras mais redondas do que a lua cheia, vacas senhoras de todo o juízo e ferroviários a bater com martelos nas rodas de ferro dos comboios. Com a globalização o país corre o risco de se transformar num Entroncamento de todo o tamanho, muito semelhante a um labirinto cuja saída se não encontra, como acontece com o défice orçamental.

Com base em aturados e científicos estudos sobre o assunto, sujeitos a discussão pública e a manifestações de descontentes, o país moderniza-se. Constrói estradas com ou sem portagem, com ou sem corredor de "bus", com ou sem passeios para os peões. Da mesma forma que implanta aeródromos, com pistas curtas ou compridas, asfaltadas ou de terra batida, cruzando-se ou não com automóveis, camionetas de excursões para a Cova da Iria e peregrinos apeados a caminho de Santa Maria Adelaide.

Os cruzamentos estão bem sinalizados, têm semáforos instalados, dispõem de passadeiras pintadas no piso, a prioridade é pela direita - de quem se apresente pela direita, entenda-se! - excepto quando se andar à volta nas rotundas. Mas os semáforos são coisas eléctricas e mecânicas, com alguma electrónica integrada, que podem avariar por coisas simples como a fusão do filamento de uma lâmpada de incandescência que o respectivo inventor não foi capaz de prever na altura própria. E os peões, mesmo quando promovidos à condição devota de peregrinos, são tanto ou mais imprevisíveis do que as crianças e as galinhas, não respeitando regras e não aguardando nunca pela sua vez, como acontece nas paragens de autocarro e nas filas para as caixas dos supermercados.

Há dois dias, no aeródromo de Espinho, um imprevidente piloto, não reparando na avaria dos semáforos acabou por abalroar um automóvel. O acidente transformou-se em tragédia apenas porque o automóvel se incendiou e o condutor morreu carbonizado. Por sorte nenhum peão atravessava a passadeira e, por azar, nenhum polícia fora solicitado a regular o trânsito. Tivesse isto acontecido e não teria havido perdas de maior, nem materiais nem humanas.

No dia seguinte um especializado grupo de trabalho apresentava-se no local, agindo directamente sob as ordens de directores gerais e de secretários de estado. Mediu meticulosamente tudo o que havia para medir, incluindo a largura da pista, a altura dos postes e a distância ao areal da praia de Paramos. Pesou o que havia para pesar, incluindo o piloto e os destroços. E concluiu, muito convenientemente, que a praia deveria perder a bandeira azul, rescindidos os contratos de concessão e mudada de local. Quanto ao resto, tudo nos conformes com os regulamentos. E os serviços da polícia devem ser solicitados sempre que os semáforos avariem!

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