17 de junho de 2006

Rua da Alegria, 648


Há anos que passo ao largo e te miro de longe. O olhar de soslaio, o passo apressado, a cabeça disfarçadamente inclinada para diante, escondendo uma timidez juvenil e falsa. De forma a que não pudesses aperceber-te desta admiração e me não cobrisses de ridículo do alto dessa altivez superior e fria. Ao fim de incontáveis dias ousei acenar-te da rua, um aceno breve e tímido mas afectuoso e morno, prenhe na esperança inútil de aguardar resposta. Sobrevoando o barro vermelho dos telhados apenas me chegou o brilho imperceptível de um olhar distante. Era tudo isto por Janeiro. Os dias suavemente cresciam como saltos de pardal, irrequietos e minúsculos. Depressa se virou a esquina do Inverno e, vaidosa, foste ao baú rebuscar os cosméticos de que não precisavas. Tonto, sobreveio-me a angústia, senti-me traído como se me pertencesses, doeu-me o peito de paixão e de ciúme. Arrisquei o sussurro de um olá, perdido no murmúrio de velhas beatas rezando o terço, a quem Deus não ouve. Mais altiva do que nunca, exageraste nas roupas que envergaste, provocantes e fatais. De saltos altos, ficaste ainda mais sobranceira em relação a mim e a tudo o que te era adjacente e próximo. Deixaste que os cabelos fartos ondulassem soltos à brisa suave das manhãs e serenassem, discretos, à canícula das tardes. Por Junho, em apoteose e êxtase, floriste. Altiva, solene e efémera. Mais sedutora do que nunca, o perfume letal descendo pela encosta íngreme, transformando em oásis o casario fronteiro e a poluição da rua. Não soube resistir-te, não consegui resistir-te. Subi a ladeira em passo apressado e de peito resfolegante. Cheguei-me a ti arfando, o coração batendo ao ritmo das paixões adolescentes, as narinas sentindo a fragrância irresistível do teu corpo. Acolhi-me, sôfrego, à amplitude grandiosa do abraço. Não tive nem forças nem braços com que pudesse abarcar-te o tronco. A emoção traiu-me, chorei meia dúzia de fotografias em contraluz, cabisbaixo voltei à rotina de passar defronte e admirar-te de longe. Do ponto mais alto da cidade reduzes a peões toda a nobreza que te enche o horizonte. Tudo se curva a teus pés. Submisso, raso, rasteiro e vulgar. A cada manhã e a cada tarde, seja a época do ano aquela for, faça chuva ou faça sol, vou venerar-te. Esta é, definitivamente, a minha tília!

2 Comentários:

Às 3:43 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

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Às 6:13 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

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