9 de maio de 2012

Saparalo



Há menos de uma semana, falando sobre o próximo almoço - já sábado, dia 12 de maio - da Associação dos Antigos Alunos do Huambo, fui perguntando por pessoas que há tempos me andam perdidas do horizonte visual. E foi assim, casualmente, que soube da morte do Saparalo ou, com mais propriedade, do Dr Raúl de Oliveira Santos Pereira. Não soube nem quando nem como isso aconteceu, mas suponho que teria já uma bonita idade e que, mais do que isso, foi um homem que soube levar a vida a rir e a divertir-se, não raras vezes com alguns excessos.

Recordo-me que foi colocado no liceu do Huambo, ainda a funcionar no edifício da Associação Comercial e no 2º andar do edifício da Lello, quando eu fui para o antigo sexto ano e que foi o meu primeiro, e creio que único, professor de filosofia. Creio recordar-me também que nesse ano foram feitas duas turmas, uma com os alunos que já eram internos e outra com os que se matriculavam pela primeira vez e que eu, nunca soube porque razões, fui o único aluno interno a ser incluindo na turma dos que acabavam de chegar.

A turma era pequena, penso que tinha apenas 22 alunos, um luxo para os dias que correm, em que eu era o número 15. E recordo que todos, de um modo geral, tínhamos alguma expetativa e algum receio em relação a uma matéria inteiramente nova. Como me recordo do primeiro ponto – agora diz-se teste – que fizemos e da nossa curiosidade em sabermos as notas. Um dia o Saparalo lá nos satisfez a curiosidade e, no início de uma das suas aulas, anunciou ter visto os pontos até ao número 17 e a melhor nota ser do número 15. Que era eu. Não exultei, mas fiquei meio estupefacto. Achava que o ponto me tinha corrido bem, mas não tão bem que pudesse ser minha a melhor nota entre as 17 já atribuídas. Pois, mesmo sendo o primeiro ponto, eu tinha apenas 10. Os restantes 16 tinham sido “corridos” a oitos e noves.

Perdemo-nos na vida. Ele dando aulas e jogando bridge – a sua grande paixão na vida - no clube militar enquanto, segundo as más línguas, ia bebendo uma qualquer bebida alcoólica, utilizando uma chávena de chá. Eu por outras paragens, devorando literatura, tentando escrever duas linhas e pensando que seria capaz de o fazer. Vim a reencontrar-me com o Saparalo, casualmente, num pequeno bar em Ourém, onde ainda dava aulas depois do regresso de Angola. Trocamos contactos e, pelo menos duas vezes, apareceu-me pelo Porto e confraternizamos durante os dias em que, bem acompanhado, permaneceu na Invicta.

Foi ele mais tarde, segundo informação que o próprio me deu, a fornecer o meu endereço para que pudesse ser contactado, como fui. E a ficar tão deslumbrado que me fiz à estrada para ir jantar com tanta gente que perdera no tempo, há algumas dezenas de anos. Nunca teria forma de lho agradecer, tão grato lhe fiquei. E tão grato me mantenho, por tudo quanto me deu, nos bancos de uma escola e fora deles. Que São Pedro o tenha deixado entrar, sem ter que bater à porta. E tenha mandado aprontar a mesa, as cartas e os parceiros para o bridge. Sem esquecer a chávena de chá com que possa ir-se dessedentando. Até sempre meu querido Dr Santos Pereira!

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