5 de abril de 2013

Na ausência de todas as coisas


Quando se fez luz e eu não soube o que chamar-lhe, entendi a existência de deus na forma e dimensão que lhe faltavam. Tanta coisa e nada sem nenhum sentido, à falta de símbolos para as representar e para poder dar-lhes um nome, um aspeto, uma cor, um cheiro, um movimento ligeiro. Tantas coisas sem nenhum nome para lhes chamar, a mesma coisa que ter tantos nomes sem nenhuma coisa para lhes atribuir, a perfeita ordem natural de tudo sem nenhuma arrumação e sem nenhum remédio.

Cruzarmo nos sob um pedaço de céu azul e não sabermos que isso é horizonte, quanto mais azul, que são olhos aquilo com que nos vemos e carinhos os raios de luz que nos atravessam. Tu e a tua mão ali, à beira rio, a água corrente com peixes à deriva, sem descobrirmos como nos tratarmos, desconhecendo que um gesto simples pode bastar para nos entrelaçar os dedos e as vidas, e para trazer para perto os barcos distantes e a felicidade que facilmente virá do paraíso seguindo o voo inquieto das gaivotas e o sonho louco dos poetas.



Tanto mar para navegar sem sabermos que é água, que é azul e que guarda peixes e conchas e tesouros de naufrágios que ainda não houve. Tanta harmonia por não haver ódio que se nomeie nem ambição que se conheça. Tanta gente diferente, para lá de todo o tempo líquido percorrido, sem sabermos que gente é, e que é diferente, depois de surgir na praia quando mais uma noite escura se enrola nas ondas de onde brota a luz tranquila da manhã, a coberto de um sol que enche a paisagem e nos restitui o olhar macio com que nos ferimos, sem o sabermos. E amarmo nos por isso!

Só o silêncio das palavras e o ruído desnecessário da sua ausência, tantos corpos que se apressam para nos tocar o comprimento dos cabelos, pássaros que voam de asas fechadas, espalhados pelas areias finas, os peixes sem barbatanas, encalhando como troncos perdidos que o mar devolve às pedras da praia. E a felicidade de se não saber cabelos, pássaros, areias, peixes, troncos e mar ou oceano. A necessidade assim urgente, de inventar um deus na ausência de tudo, sem nomes e sem distâncias, sem fomes e sem frios. Apenas a água salgada, os olhares naturais que partilhamos, os dedos que juntamos. A vida que se inventa sem nome, e que se vive sem limite!

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