14 de maio de 2013

A caminho de Pasárgada


Quando o inverno que vem se aproximar do seu termo e as cerejeiras florirem, assegura-te que o perfume virgem das flores de laranjeira te inunda as narinas e te brilha no olhar que já adivinha a primavera. Colhe um ramo composto e fresco, certo do verde da folhagem que se seguirá, como refúgio do chilreio dos pássaros que se apressam para a construção dos ninhos e a manutenção das espécies. Corre ao Terreiro do Paço, ao canto onde aportam os barcos que chegam de Vila Viçosa, por caminhos de terra desenhados entre montados e sobreiros que ninguém ousou despir da sua capa alentejana de cortiça e de promessas. Pergunta por Manuel Bandeira, hás-de encontrar-lhe a memória e os poemas simples que chegam ao coração sem paragens e sem apeadeiros no percurso.

Pergunta-lhe qual o melhor caminho para Pasárgada, é por ele que vais ter que te evadir. Não te incomode o burburinho e a balbúrdia que se adivinham nas arcadas. Alfredo Costa e Manuel Buiça estão mortos, a guarda e o povaréu não precisam que os ajudes na tarefa. Sem reverso, o rei e o príncipe também, o regicídio consumado, o que é uma pena e uma perda, não se ganha nenhum novo sol a formar novas quadrilhas e a empregar novos ladrões, mesmo que venham de latifúndios ribatejanos onde o verde da lezíria se estende até à beira Tejo, sem chegar ao Limoeiro.



Atira à memória do rio que se alarga pelo Cais das Colunas, o ramo de flores de cerejeira que trazes de braçado. Não te preocupes que não se afundará, irá flutuar ao sabor manso da corrente e nem o perfume das flores de laranjeira deixará pelo caminho, mesmo que possa encalhar em São Julião da Barra, onde finalmente se perderá no abandono dos dias e na subida das marés. Segue para Pasárgada por onde te indicam a memória de Bandeira e a métrica irregular dos versos que não leste. É lá que mora o futuro e, como ele e toda a gente, serás amigo do rei e sentirás o aroma do paraíso nos desejos que pensares.

À tua espera tudo e mais setenta esbeltas virgens a que dá direito a contabilidade celestial do Alcorão, os corpos apenas protegidos por finos e vaporosos crepes. Requebrando-se nas mais sensuais danças do ventre, as cinturas largas sob o peso excessivo dos explosivos que carregam. Prontas a implodir mais uma torre do Bairro do Aleixo e, com a maior dignidade, o plenário do conselho de ministros reunido em tarde de dia santo. Para que também o esbulho seja santificado, como em Pasárgada!

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