5 de maio de 2013

Dia da Mãe


Todos os anos, por inícios de maio, quando se alongam as horas dos dias claros e o amarelo das giestas rebenta pela berma das estradas, a hipocrisia consagra um domingo a todas as mães. Como se um dia, mesmo de domingo, desse sequer para pronunciar com dignidade suficiente um nome cuja amplitude vai para além do universo que conhecemos.

Mãe são três letras que não cabem em nenhum papel, em nenhuma parede, em nenhum céu estrelado. Um som que vai muito para além das frequências que o ouvido humano é capaz de entender. Um sol que brilha  muito mais do que aquele que nos ilumina e se cansa quando chega à linha do horizonte, com o cair da tarde.



Sei que a minha me deixou sozinho, na beira do caminho, quando a minha vil ignorância me levou a pousar-lhe suavemente a mão sobre a testa, como se fosse uma carícia, e a senti fria como o gelo da ausência que é cada vez mais a minha única constante da vida. Daí para cá não se me secaram as lágrimas, não me se interrompeu a orfandade, não me sobraram momentos para um sorriso breve. Todos os afectos foram promessas que não existiram ou não passaram disso, um buraco negro, que se alarga a cada dia, é a única perspectiva com que me partilho.

Não me lamento, mas sei que me não cabes em nenhuma palavra, em nenhum choro, em nenhuma recordação. Mãe é um conceito demasiadamente grande para mim, não se acomoda num dia, vai para lá da eternidade, nem sistema solar, nem via láctea. Que mesquinhez pequenina quer agrilhoar uma tal grandiosidade à dimensão de umas curtas horas? A não ser a hipocrisia?

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