29 de março de 2015

A caminho de Machu Picchu

Domingo de ramos, uns curtos dias para a páscoa, a procissão inca subindo por todos os carreiros de montanha que levam aos cumes de Machu Picchu, quando o degelo ainda engrossa o caudal dos ribeiros que se precipitam pelo abismo das encostas. As madrinhas que se acotovelam nas naves dos templos, enquanto entoam preces solenes para o acto, empunham terços de madrepérola e vestem de branco, os bolsos cheios de amêndoas de licor, à espera da saudação anual e respeitosa dos afilhados, crentes e gulosos.

O adro, amplo, da igreja, em secular e simétrica calçada portuguesa, que hoje decora as praças do centro de Pequim, como que desenhadas à pena com a precisão surrealista com que Cruzeiro Seixas libertava o pensamento à saída dos museus. Os ramos de palmeiras espetados à entrada, como se fossem pés de milho já na fase adiantada de deitar espiga e prometer pão, os raminhos de oliveira vendidos aos portões por emigrantes romenos, a um euro cada um, celebrando a paz universal e decretando, por consenso unânime, a libertação da Palestina e a quadratura do círculo.


Terminada a quaresma, o dia santo põe fim ao prolongado jejum e intensifica o combate à pobreza, por decreto, e por actos, doando vinte cêntimos para a esquálida sopa dos pobres que enregelam nos portais. E que morrem no inverno com a boca presa ao gargalo de uma garrafa de vinho, como se só dali sobrasse alguma vida para eles. Reunamo-nos à saída, findo o sermão e a eucaristia, a alma santificada com a hóstia e a água benta, e encaminhemo-nos para o substancial cozido à portuguesa que decerto encontraremos ao descer a rua dos caldeireiros. Não há nada como a consciência tranquila de ter praticado o bem e contribuído para alimentar os pobrezinhos!                                                                                                  

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