24 de março de 2015

Na desmorte de Herberto Helder

A morte que já não tinha mestre, ficou órfã. As tuas palavras únicas desceram do Pico do Arieiro, debruçaram-se sobre o Curral das Freiras, invadiram as ruas de Porto Moniz, incomodaram os corredores alcatifados do Palácio da Vigia onde um homem sem nome escolhia as cuecas com que se apresentaria no desfile carnavalesco, escondendo as ideias e as misérias, da cabeça e das partes baixas.

De repente deixou de haver espelhos de cristal, nem estilhaços sobram para que a diligência anónima de uma vassoura os junte a um canto deste ano de sol e vento, ainda sem flores naturais colorindo a vida dos jardins e as bancas do Mercado dos Lavradores. E bem que o foste dizendo, palavra atrás de palavra, em cada verso que escreveste, em cada livro que não reeditaste, em cada silêncio que se fez noite de lua nova, enquanto te mantinhas vivo e lentamente adormecias para a viagem.

Assim, de um fôlego, queria ser capaz de copiar-te o talento, aprender-te a sabedoria dos anos, dizer de enfiada todos os poemas que fizeste com que brilhasse a Fonte Luminosa e enchessem a arena do Campo Pequeno, onde não há placas a anunciar que é proibido fumar e os animais podem entrar livremente, lado a lado com os homens, pequeninos e ridículos, presos no meio de um par de cornos.


Depois escolher o ambiente seleto de uma tasca do Cais do Sodré, onde ainda se venda vinho a copo, e ler-te toda a Ode Marítima de uma forma que só tu serias capaz de ouvir e entender!

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