Manhã de sábado
Manhã
de sábado, a rua, o passo inseguro e vacilante, as pernas bambas, o céu azul e
um sol de março invadindo praças e travessas. Acordei cedo para o que é hábito
do relógio que me dorme à cabeceira e escanhoei a cara, nem um arranhão. Minha
mãe, à distância de mais de sete anos, haveria de gostar, sem dizer palavra.
Mas o seu sorriso cândido, de mais de nove décadas, certamente lhe brilharia
nos olhos e me chegaria à alma como uma carícia da sua mão magra e velha, como
se pensasse que, assim, eu me pareceria mais com uma pessoa normal e menos com
um salteador do século dezanove, escondendo-se às esquinas da noite, à espera
da vítima.
Fi-lo
também, e especialmente, por ti. Para poder sentir na minha pele macia o afago
morno da tua mão pequena e frágil, sem nenhum queixume de que a minha face é
uma seara de punhais maduros, prontos a ferir e a fazer-te correr as lágrimas
sentidas que não desejas e a ver jorrar o sangue dos ferimentos, vermelho,
azul, extracto de salsaparrilha, que sempre resultam das pontas afiadas dos
punhais. E posto isto, aqui me quedo, deambulando perdido e sem destino pelos
espaços que o sol vai abrindo à minha frente, como se fosse um vencedor, a coroa
de louros soltando-se-me dos cabelos, uma qualquer medalha presa ao peito e encaminhando-me
para a posteridade e para a história.
Dura
a espera e este desespero denso que carrega, desde que a madrugada se fez
anunciar na luz mortiça dos candeeiros eléctricos da iluminação pública. Um
olho desperto preso à noite, que não morre, o outro pousado sobre o silêncio de
um telefone, que não toca, o pensamento voando em círculos, à volta da tua
ausência longa que já não tem medida nem diâmetro em que possa acomodar-se.
Depressa o sol rumou a poente e foi perdendo altura, a perder-se nas águas
frias do oceano, onde se perdem os sonhos de cada dia e a luz que os ilumina.
Dele não fica mais do que o estertor final, esplêndido, antes de sumir-se na
linha imaginária do horizonte. Na praia há apenas um banco vazio, sem corpos
que se toquem e sem mãos que se dêem.
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