1 de março de 2015

Paisagem de domingo com gralha ao lado

Domingo chuvoso e triste, um nevoeiro fino e persistente a saber a inverno, que te humedece os cabelos e que vai parando nos semáforos, à espera do verde do sinal. Trago-te presa ao telefone, a saber que tempo te faz no quarto, onde te mantens no quente dos lençóis, esperando pela primavera e pelo verde da folhagem na ponta dos ramos dos plátanos centenários.

Resta o jornal, só desgraças e a sabedoria única do Vasco, que não vai além das Portas de Santo Antão, que não existem na invicta, onde até a humidade cheira a porto vintage e sabe a aguardente vínica, o rio lá em baixo, a recordação de Torga debruada no contorno granítico dos penedos.

E fica ainda o café ao lado, atafulhado de mesas onde não cabe ninguém, o pão nas prateleiras aguardando as encomendas e o saco de plástico que o governo vende patrioticamente a dez cêntimos cada um, para bem do povo e prosperidade da Alemanha.

E a gralha na mesa ao lado, uma idade indefinida de alguns duzentos anos, chegada da missa, com a boca ainda a saber-lhe a hóstia e o terço vulgar enfiado no pulso. A língua solta e o conhecimento vasto e variado, que sabe tudo e que se não cala. A miúda sentada à sua frente, muda e calada como uma parede de granito de quatro séculos e três metros de espessura. De medicina, lexotans e benurons, tens de ir ao médico, não podes usar os óculos que a tua mãe deixou quando morreu, podem ser fortes ou podem ser fracos.

O teu avô pu-lo fora do quarto, morreu numa pensão de Campanhã que nem sei onde é, mas nunca mais o deixei voltar para casa. A tua mãe é que foi dizer-lhe que estava grávida de ti, a puta, e diz a palavra solenemente, enquanto se benze. Conheceu três homens, teve um filho de cada um. Eu que vinha tão bem da igreja, devias de ir à missa também, devias ficar melhor de aturar, chego ao pé de ti e não posso aturar-te, vou dizer ao médico, não há lexotans que me cheguem, as dores de cabeça que já me fizeste. Mas vou para casa, apetece-me comer melão e tenho um em casa, casca de carvalho que comprei ontem, está no frigorífico, mesmo que eu não tenha luz. Estúpida, anda embora mulher, vai vestir um casaco, ainda lá tenho muita roupa tua para lavar, a dona do quarto não quer lá sacos, não volto para lá, ela quer é os duzentos euros.


E a rapariga de pé, sozinha, virada para a parede. Impávida, estúpida e serena. A gralha já na rua, de guarda-chuva aberto, à espera que abra o verde do semáforo, no meio do nevoeiro ligeiro e persistente.

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