16 de fevereiro de 2016

A nostalgia é como um rio

A nostalgia é como um rio que desperta no cimo da montanha, tímido e cristalino fio de água, espreguiçando-se ao ritmo lento a que o dia vai clareando, o sol ainda baixo espreitando por entre as fragas, esfregando os olhos com a mesma indolência com que a ramela da noite lhe foi colando as pálpebras. Adquirindo a rebeldia ingénua da criança descalça, que desce aos saltos o alegre declive das pedras da encosta, acomodando-se ao leito, ganhando corpo, púbere e ansioso por chegar depressa à planície e sentir o aconchego do manto verde das margens que lhe acariciam o corpo, como bálsamo que o acalma e o fortalece.


Depois, alagando o leito já plano onde crescem arrozais e ainda juncos, a nostalgia vira tristeza, não há mais lugar para os penhascos que de há muito ficaram para trás. O rio é grande e solitário, de águas muitas e cor barrenta, sem pessoas e sem barcos, galgando diques, enchendo casas, ameaçando vidas e arrastando coisas e animais. Nada lhe resiste e muito pouco o enfrenta, irado ruge quando passa, atemoriza, espraia-se mais quando é seu todo o horizonte, aproxima-se da foz para o combate final com o oceano que o espera, a espuma branca na crista das ondas que apagam a luz alta dos faróis. E perde, e aí morre e aí não é mais do que um fio de sangue sujo que vai esmorecendo pelo mar dentro, sem glória, até desaparecer.

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