14 de fevereiro de 2016

Chamissassa

Penso e saboreio a palavra dentro de mim, como se me nascesse no coração e a partir dele se me espalhasse pelo corpo, em golfadas, ao ritmo a que este ainda bate, algumas cinquenta pulsações por minuto, sem pausas nem arritmias. É como se fosse um parto tranquilo, sem dor nem choro, um calor morno que me conforta o frio nocturno, me aquece os pés, me serve de tapete e de agasalho. Uma melodia que me chega aos ouvidos, de dentro para fora, num compasso lento que ainda estendo pelo tempo, para que nenhuma nota falhe, nenhum acorde se perca, nunca mais acabe.


Repito a palavra vezes seguidas como se uma dúzia delas chegasse para lhe retirar todo o conteúdo e a privasse de sentido. E, pelo contrário, há uma sombra que se estende pelo centro da aldeia, a proteger-nos de um sol bravio, como uma mulemba gigante que ali tivesse surgido de repente, vinda de lado nenhum, coisa de feitiço africano, que abrigasse pássaros mudos, porque é da palavra o exclusivo de tudo. Prolongo-lhe a última sílaba, deixo que se me enrole na boca, me inunde o palato, me leve a felicidade às narinas. Acaricio-a, como se a pudesse fechar carinhosamente na palma da mão, sentir-lhe a suavidade do pelo curto de um coelhinho, prestes a abrir os olhos para a frescura da erva.

E digo chamissassa como se isso fosse mágico, com a suavidade com que se diz ternura, um carinho verde brilhando-me nos olhos, uma palavra que é apenas nome de aldeia e que me basta para dizer tudo na vida. Uma palavra que me preenche por completo, tão solidária como colmeia, tão diligente como abelha, tão doce como todo o mel que me transborda da imaginação, tão infinita como amor. E que não vejo escrita em nenhum dicionário.

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