22 de maio de 2016

Contigo poderia ter aprendido

Contigo poderia ter aprendido a reconhecer, sob a ternura tranquila dos lençóis, as manhãs de domingo e as nuvens brancas enfeitando o sol dos dias de primavera. Poderia ter aprendido os muitos e longos mistérios do silêncio, à cadência ritmada da respiração exacta soltando-se-me dos lábios. A roupa pendurada no estendal da varanda, a libertar aquele cheiro fresco a infância que trazem nos olhos fundos as crianças de áfrica. Poderia dizer mulemba e isso ser pássaro e ninho e vida, sentir na mão a forma esférica e dura do maboque e na boca o sabor agridoce que lhe serpenteia pelos ramos, um bando de flamingos passeando a cor das penas pelas águas rasas da enseada.

Contigo poderia ter aprendido como o olhar se prende à distância e à esperança que desenha a curva do horizonte, sentar-me num banco público virado a ocidente e esperar que o sol explodisse ao fim da tarde, longe de barcos e de árvores. Por a insegurança da minha mão direita sobre a certeza nua dos teus joelhos, uma sede de verão a que não resta nenhum sinal de brisa, um gin tónico no copo, sabendo a frio e a limão. E dizer amor como se não houvesse nem noite nem inverno, o por do sol se espalhasse pela praia e se reflectisse no espelho plano que é o brilho permanente dos teus olhos, as estrelas como pontos encantados adivinhando-se no firmamento.



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