16 de maio de 2016

Uma chuva de primavera

Uma chuva de primavera, fresca e verde, ocupando os dias e afagando os plátanos da praça, de copa ainda mal composta, como véus de noiva atrás dos quais se encobre um sorriso feliz e breve. O voo atarefado das cegonhas, carregando os gravetos para o acabamento grosseiro e rústico dos ninhos, onde os ovos serão crias que um dia destes amanhecerão voando, como senhoras absolutas, sob o azul de um céu sem nuvens. Uma multidão transbordando do recinto, acenando lenços brancos, como se eu ali estivesse sozinho e só, uma rosa vermelha presa aos lábios, saudando a tua chegada coberta por um manto alegre de papoilas e de ervas. E tu me fosses todas as papoilas e toda a vida que me faltam.



Uma toalha branca sobre a mesa, posta para o jantar, um livro aberto ao acaso, todos os poemas de amor espreitando-te pelo decote estreito da blusa, como uma promessa de uma viagem ao futuro. Um futuro alegre e longo e sempre cheio de papoilas e de ti, sem nenhum tempo que lhe sobrasse, as estrelas escorrendo-te pelos cabelos soltos, esvoaçando ao vento. E o livro sobre o prato, como uma iguaria que se serve em folhas soltas, sem condimentos nem ervas aromáticas, mas que se saboreia em pequenos fragmentos que nos entram pelos olhos e nos chegam ao coração. Uma voz rouca, entorpecida pelos sentidos com que levo um beijo simples à tez suave do teu rosto, uma luz difusa pousando-te no ombro.

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