10 de abril de 2016

A chuva na manhã fresca

A chuva na manhã fresca, atravessando o equinócio, atrasando a explosão de verde nas copas quase nuas dos plátanos, os teus ombros descobertos, a igreja do outro lado da praça, ao fundo do adro amplo, onde se mantém desenhada uma enorme rosa-dos-ventos, obra de arte de um qualquer calceteiro de que se perdeu o nome e a profissão. Os guarda-chuvas abertos, atirando o céu limpo para lá do horizonte, como mostrengos povoando o cabo das tormentas, vítima futura da boa esperança, as quilhas brilhando à luz clara de um novo oceano, ainda por descobrir, rumos do oriente fascinante e misterioso. A esperança na cor rosa dos teus lábios firmes e ansiosos.


Depois, pela tarde, parece que um vento invisível, vindo de leste, empurrou o ventre da borrasca para o mar alto e foi desfraldando os cúmulos brancos pelo céu azul. Na tua sala, o sol rompendo a semiobscuridade das cortinas, a lareira acesa, a lenha ardendo num fogo lento, ao ritmo sincopado a que se dança um tango argentino, a gata ronronando com aquele calorzinho súbito alisando-lhe o pelo lustroso. A mesa posta, rectangular e longa, uma das pontas quase a fugir pela porta fora, sem nenhum lugar marcado e todos os lugares certos. Os pratos alinhados, os copos dispostos como se fossem uma escultura, os talheres arrumados com esmero, aguardando, os guardanapos de tecido imaculadamente branco, dobrados com rigor geométrico. Para o almoço!

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