26 de maio de 2016

O homem que não sabia caminhos

O homem que não sabia caminhos, chegou às encruzilhadas da vida e aí se perdeu, virado para nenhum lado. Sem pontos cardeais e sem pássaros que lhe saíssem do olhar, não foi capaz de descobrir de onde vinham as andorinhas e que destino davam ao seu voo sem destino. Há sempre um certo nevoeiro que se acumula nos leitos dos rios e que embacia os vidros das janelas e as necessidades de futuro. Depois, há sempre um momento em que um qualquer terramoto chega das profundezas da terra, estilhaça todos os vidros e leva para ontem todos os dias que eram amanhãs, quando os barcos se prendiam às mãos robustas dos remadores e nos cais o tempo de espera envelhecia sobre o musgo.


Sem bolsos nas calças, enchem-se de frio as palmas das mãos e de chuva forte o vento leste que desce pelas chaminés, libertando o escuro da fuligem. Quando se não conhece nenhum caminho, não há nem rota nem maré que levem ao cabo da boa esperança, além do qual se encontrem a bonança, a rosa-dos-ventos e os reis magos seguindo a luz da estrela polar. É preciso que haja uma razão para que o sol nasça sempre a oriente, para que daí sopre o vermelho e branco com que se pinta a vida que resta para lá da cortina que encobre todo o cinzento dos passos em volta. Sem horas e sem calendários, sem anos e sem meses, com todos os janeiros riscados do inverno.

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