2 de junho de 2016

Era ainda uma quase manhã de quinta-feira

Era ainda uma quase manhã de quinta-feira, com os ponteiros dos relógios mal se esquivando ao desconforto da sobreposição ao meio dia, e uma densa neblina nevoenta subindo pelas calçadas, desde o cais das colunas. Pela rua do carmo acima, a voz rouca dos pregões e o peixe nas canastras, à cabeça das varinas, pássaros presos em gaiolas chilreando por detrás dos vasos ao sol, onde ameaça despontar o vermelho vivo das sardinheiras e o cheiro vindo dos fogareiros onde se viram as sardinhas.


E Pessoa descendo da brasileira do chiado, o chapéu enterrado na cabeça, os óculos de míope, um triângulo isósceles pendurado no nariz, as calças curtas, o frasco de aguardente aconchegando-lhe o bolso do casaco. As biqueiras dos sapatos como quilhas de navios que não couberam no porto, todas as velas pandas, o vento soprando de sul, fraco e morno, com o sabor a areia como se fosse nuvem que chegasse do deserto. O rumo seguro, o destino certo, como se o olhar fosse um homem imóvel preso ao leme, indiferente às tempestades e às curvas do caminho, o abrigo à espera sob a luz difusa das arcadas.

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