17 de junho de 2016

O amor não é nenhum sentimento complicado

O amor não é nenhum sentimento complicado, nenhum aperto do coração, nenhuma insónia, nenhuma arritmia. O amor é um conjunto de coisas simples, um sorriso breve, um aceno de mão, um raio de sol, uma carícia nos cabelos, um abraço, uma lágrima furtiva ao canto do olho. O amor é um ninho de cegonhas no cimo de uma chaminé abandonada, a alimentação das crias a que ainda falta o voo, um saltinho de pardal num terreiro de jardim, um soneto de versos decassilábicos, a métrica exacta, a rima fluída e natural, um riso ingénuo de criança. O amor é a falta de abrigo na noite fria, a partilha de um cartão a servir de enxerga num portal vazio, uma ponta de cigarro apanhada do chão, dois goles de vinho barato que dão algum calor à vida curta que sobra na noite longa.


O amor é partilha, não é nem solidão nem abandono. O amor não é o frio do escuro subindo pela espinha, o olhar triste e magoado, o desmazelo descuidado, o desalinho do cabelo e das horas, a água da chuva correndo nas valetas, encharcando os sapatos rotos, enregelando os pés quase descalços até às aurículas onde o sangue promete parar. O amor não é o silêncio sentado na berma da estrada, o tronco curvado, as mãos sobre os joelhos, o nevoeiro escorrendo pela humidade das paredes e subindo o leito do rio, sem olhos que esperem pelo regresso da esperança na quilha altiva das caravelas, o bojo transbordando de especiarias e do sol que nasce a oriente. O amor não é nenhum mistério da estrada de Sintra, o amor é simplesmente ver para fora e olhar em volta.

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