14 de junho de 2016

Olho para o dia como se não houvesse ruas

Olho para o dia como se não houvesse ruas e o mesmo não fosse mais do que o muro alto ao longo do qual arrasto as horas do relógio que não uso. E assim caminho, como se o mundo inteiro não existisse para além deste estreito passeio, onde mal me cabem os passos curtos e o olhar triste, sempre preso à biqueira dos sapatos e ao nevoeiro das manhãs. Pode ser que um tempo infinito ainda se me abra à frente, se afastem todas as águas do oceano para que eu seja igual, e o caminho se alargue até chegar ao vermelho e branco de que se tinge a vida na grande muralha onde, a oriente, moram as civilizações do passado e do futuro, e as estrelas cintilam como peixes exóticos nos leitos verdes onde correm os rios.


Não interessa sequer que chegues, trazendo debaixo do braço a cruz para pendurar na porta da tabacaria, quando a noite azul se acende sob o luar viscoso do quarto minguante e já não há portas onde se possam deixar as chaves de casa e pendurar o casaco que trazemos pelas costas. Veste uma camisa branca, com a frescura do linho em cada fio por onde possa entrar o silêncio que acompanha a luz clara dos tempos de verão. Deixa que o meu destino more nos dedos esguios da tua mão e que dela se liberte o perfume que tem faltado à primavera e se solte a alegria que sempre sobrou à simplicidade da música de África. Deixa-me que volte para trás, que caminhe descalço e que encontre a beira do rio onde possas vir sentar-te comigo!

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