7 de setembro de 2016

Que água azul, tanta e mansa

Que água azul, tanta e mansa, se alarga da transparência inquieta dos teus olhos. Transbordando de verde pelo junco das margens, onde se vêm acalmar regatos e ribeiras, pequenos pássaros balouçando-lhes nas pontas, ao sabor da aragem frouxa, que não há. Tudo verde, um verde persistente, pujante e líquido, à sombra do qual estremece um silêncio quieto e fresco, como uma manhã urbana no centro das cidades. As manhãs acesas das cidades, todas pintadas de azulejos nos passeios públicos e nas estações onde descansam os passageiros exaustos dos bancos da madrugada.



E pelas ruas correndo um vento quente, desfolhando papéis soltos nos tampos das secretárias, onde os funcionários públicos contam os minutos e preparam o expediente para despacho. Cada linha como um dia que passa, um verso de um poema lírico, desenhado com o rigor caligráfico de uma exuberante letra francesa, como se fosse um cartaz que anunciasse as celebrações da tomada da Bastilha. Um desenho rigoroso, que resultasse num belo soneto de amor, a voar leve, no bico de uma cegonha branca. Cada verso com a rima melodiosa e rítmica, a métrica com a exactidão decassilábica e tónica da perfeição dos sonetos de Camões!

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