14 de agosto de 2016

Chamar Cabo da Boa Esperança ao Cabo das Tormentas

Chamar Cabo da Boa Esperança ao Cabo das Tormentas, deixar zarpar frágeis caravelas ateando fogo aos promontórios, o Adamastor na ponta da língua afiada de Pessoa, uma jovem adolescente adormecida, coberta por um véu de tule branco, virada para a gateira da porta por onde às vezes entra a vadia liberdade dos felinos. O Índico ali logo ao dobrar da esquina, como um rebelde pingo de água que caísse da torneira e se fizesse onda que apenas fosse morrer às praias brancas de Madagáscar, deixando os destroços de todos os naufrágios à deriva nas correntes frias do mar alto. Águas transparentes como um aquário do tamanho do oceano, povoado de coloridos peixes tropicais, os recifes de coral elevando-se do fundo, como uma submersa cordilheira dos Himalaias.



A praia imensa de águas claras, correndo pela linha indefinida da maré, um lugar sem tempo e sem horário, o luar como se fosse sempre lua cheia, afagando as noites e as folhas das palmeiras onde descansa uma brisa a que apenas falta o voo dos pássaros. Uma miragem, como se um oásis lentamente nascesse no meio do deserto, logo abaixo do cruzeiro do sul e de todas as estrelas de que se borda o firmamento. Nós ali, imóveis e perfilados de medo, pensando que não houvesse verão e que o sol afinal não servisse para nada. Aguardando pela nossa vez, como se estivéssemos nas bichas dos centros de emprego e da distribuição de pão, como se o amor precisasse de alimento. As mãos dadas, os dedos escorridos, o amor caindo em gotas breves sobre o silêncio, e tudo tão natural como se fosse hoje.

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