8 de agosto de 2016

Partir de madrugada

Partir de madrugada, quando ainda há madrugada no teu corpo e sonhos no fundo claro dos teus olhos cerrados. Partir silencioso, sem deixar rasto nem lágrimas, espalhando a saudade breve sob a luz mortiça dos candeeiros das esquinas, prestes a apagarem-se. Aproveitar as ruas ainda desertas, ter a certeza de estar só, saber que apenas poderei estender a mão à manhã que se anuncia e levá-la ao bolso das calças, para guardar coisa nenhuma. Baixar a cabeça para evitar as pedras do caminho e os acidentes do percurso, e saber que assim darei alguma protecção à esperança verde que carrego no cansaço magoado dos meus olhos.


Seguir pela beira do rio que corre sereno, trazendo consigo o sol que brota com as primeiras águas da nascente. Todos os barcos quietos, de luzes apagadas e sem pessoas no convés, presos às amarras que os prendem ao cais adormecido, aguardando pela azáfama irrequieta da jornada. Aguardar pelo meio da manhã e sentir que o sol me aquece os ombros e conforta o vazio largo que trago no estômago. Saber que por essa hora o sol já te atravessa as frinchas da janela e te beija o corpo que espreguiças, em decúbito dorsal, coberto de organdi azul. E que não deste nem vais dar pela minha ausência.

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