11 de julho de 2017

Estendo as mãos sob os lençóis

Estendo as mãos sob os lençóis como se fosse sexta-feira. Uma triste luz difusa vai lentamente varrendo o pó que os dias acumularam sob a cama. Cresce um frio pelas paredes acima, que obriga o enxame ao recolhido conforto da colmeia. Faltam à manhã o sol e as flores de que se alimenta a utopia dos poetas líricos. E as flores silvestres, que se extinguiram sob a sombra do betão da ponte que atravessa o rio. Um rio sem margens, cortado cerce pela estrada, é como uma árvore sem raízes, uma mulher jovem sem pernas, toda vestida da cintura para baixo. Nunca deixa as pegadas marcadas sobre a suavidade amarela e fresca da areia húmida. Onde os peixes vêm descansar durante o defeso, na ausência prolongada dos pescadores, enquanto as redes repousam amontoadas num sono longo. E onde antes, de forma diligente, os pássaros construíam os ninhos, para continuidade da espécie e do chilreio matinal na orla das florestas e das searas.



Assim tu exibas a face levemente trigueira, que te trouxe a maior proximidade dos trópicos e o sol que se espalha pela praia. E que te deu ao rosto o encanto de quem vive um sonho na ponta das estrelas cadentes. Até que a tarde e o mar sejam a cama em que te deitas.

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