6 de maio de 2018

Mães


Mãe, hoje queria regressar contigo aos anos da tua infância. Aquela infância que não tiveste e de cuja falta nunca te lamentaste. Subir o caminho de terra, de mão dada contigo, em silêncio, vendo o tojo estender-se até ao cimo da colina, onde a estrada muda de direcção. Entrar contigo na casinha humilde, mais ou menos a meio da encosta. Ver o fogo a crepitar na lareira, a panela de três pés a ser lambida pelas chamas da fogueira, apenas a água fervente. Sentir a serenidade digna e pobre que, além de meia dúzia de filhos em volta, aquecem o ambiente à roda da tua Mãe. A mãe coragem naquele ignoto sítio que nem Brecht alguma vez seria capaz de imaginar. A dignidade e a coragem não precisam nem de altivez nem de abastança. Precisam apenas de amor. O amor de quem sustem as lágrimas num cantinho do coração, de quem tira a côdea da boca para a dar aos filhos. E de quem, no fim de todas as canseiras – e ainda de tudo isso! – desce ao centro da aldeia, entra na igreja e agradece a Deus. Para depois regressar a casa, tranquila, esperançosa e feliz.


Todas as mães, minha Mãe, são mães coragem. Mães que carregam os filhos que lhes deformam o ventre e lhes amiúdam os passos, enquanto mantêm uma esperança ansiosa à tona do sorriso azul e terno. Mães que se confrontam com as dores do parto, os dentes cerrados, as lágrimas de alegria e o riso feliz no rosto sempre infantil. Mães que se anulam, que abdicam de si próprias, que se entregam ao sacerdócio de serem coragem, de serem Mães, de escreverem amor com cada pequeno gesto. De pertencerem aos filhos, para além de si e para além deles. Queira ou não celebrar-se tudo isso num único domingo de Maio! Com a palavra Mãe eu escrevo saudade, sinto a tua fronte fria na palma da minha mão e deixo que as lágrimas me rolem pela face. E sinto que, contigo, perdi tudo!

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