5 de junho de 2018

Era naquele tempo que o milho adianta nascer


Era naquele tempo que o milho adianta nascer ainda pequenininho, com a chuva a parar de chover, devagarinho, devagarinho. A chana começa de ficar seca com a água do rio a voltar no caminho dele, os passarinhos a sair das casas para voar cantar e fazer os ninhos para nascer os filhos deles. Os bichos todos começam de passear em cima do capim da picada, às vezes a ir até no rio para beber água de acabar a sede. O sol começa de aparecer em cima das árvores grandes, sei lá se é mussibe se é girassonde o nome delas, mas pouco a pouco vai chegar o camião com o motorista branco, cambuta, com o bigode dele parece que é vassoura, o kamacapa sentado ao lado no banco dele, a janela aberta, olhando todos os lugares, sem medo nem admira sempre a segurar na arma dele pronto para dar tiro numa palanca.

Na carroceria todas as bikuatas que precisa para fazer o tal de campamento no meio do mato, com as lonas para fazer o xingue ou sei lá o quê para dormir à noite, o fogo sempre a arder logo logo ali perto, os leões no meio do escuro gritando as conversas deles. As panelas para fazer o almoço arroz de frango se adiantou comprar um no caminho, ali no meio do mato não tem mais loja para comprar nem kimbo para arranjar. Ainda a mala de chapa pintada, a cor que não sei o nome dela, as coisas de comer todas lá dentro. O arroz, o café, o açúcar, as cebolas, sei lá mais o quê, o garfo de comer caneca de beber café.


Logo logo uma data das palancas comendo o capim delas, o rio perto perto com os jacarés a dormir o sono deles, o sol em cima, os olhos todos fechados, até pode ser que é só mentira à espera que uma palanca venha beber água e de repente leva com o rabo dele, cai no meio do chão, uma perna já está dentro da boca do jacaré a lhe puxar no meio do rio. No meio do rio o jacaré é o soba mais velho, a manha toda que lhe aprendeu com a vida dele, a palanca não vai voltar para comer o capim dela vai morrer lá na água do rio, na boca do jacaré sem lhe deixar nadar para fugir. A palanca desconseguiu da vida dela, o jacaré já arranjou o almoço dele.


1 Comentários:

Às 9:40 da manhã , Anonymous alfacinha disse...

O homem branco é o único assassino nesse relato maravilhoso .Somente mata para o prazer da caça e não para sobreviver .
Abraços

 

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