30 de janeiro de 2019

Não tem um dia para falar saudade


Não tem um dia para falar saudade. Tem só um dia para falar que é dia de domingo, para encontrar com os amigo, passear um bocado, adiantar beber meio litro de vinho ou quissângua até que pode ser caxipembe se lá na loja tem para lhe vender. Os outros dias até que não sei o nome deles, não adianta nada, é sempre sempre para trabalhar, sei lá se o nome deles se é sábado ou se é o quê.

Mesmo no domingo adianta sair só depois do almoço, depois de pegar o luíko, bater o pirão, assar o peixe seco no fogo, deixar os pratos todos lavados, todas as coisas arrumadas no sítio delas. Depois até pode ser que vou ter a minha sorte, vou conseguir levar a bicicleta Hopper para ir com ela até na Bomba, tomar bem conta por causa dos gatuno, conversar, beber um bocado, cuidado com a piela, o menino sempre fala.

Quando saí no vicanjo não sabia nem português, só mesmo esse umbundo que lhe aprendi nas costas da mãe. Quanto mais isso de vinho, caxipembe, sapato, saudade, todas essas palavras dos brancos. Quando saí sei só que a chuva tinha parado de chover, na estrada o camião chegou ao pé de mim, cheio dos sacos de milho em cima dele, parou um bocadinho, subi em cima, sentei num saco e fui até à cidade com os olhos espantados e o medo lá dentro de mim.

Com o menino adiantei aprender essa língua do puto muito difícil de falar, nem que cabe na cabeça. E fui-lhe dizendo como a gente fala o nosso umbundu, as asneiras todas primeiro, ele que quis, até que nem vou dizer aqui outra vez. Ele me disse como fala galinha porco água frio saudade tudo. Mas isso de saudade é palavra de confusão não é de comer, a gente não vê como que vai saber aquilo que é? Luíko a gente pega peixe a gente come vinho a gente bebe.

Saudade é palavra que o branco fala mas não dá para ver nem para lhe agarrar. Aprendi calça camisa sapato sabão banho tudo. Saudade ninguém que me diz é isso aí, tu come com a mão, mete no bolso se quer pode beber ou deitar fora. Diz que fica dentro do coração vai batendo com ele se ele para a gente pronto, uafa.


Adiantei perceber que saudade afinal é a mulemba que tinha no vicanjo, quando o sol vem a gente senta em baixo dela fala as nossas conversas brinca as nossas brincadeiras. Agora que estou na cidade, visto camisa e calço sapato, vou ter com os amigo, bebo o meu meio litro ando na Hopper. Mas fico sempre a pensar os amigos do quimbo, o tamanho assim grande da mulemba, os dias com o sol e nós todos em baixo com as conversas e os risos. E afinal sei que saudade é mesmo essa mulemba que ficou no quimbo, com os mais velhos sentados na porta, fumando o cachimbo deles, comendo as folhas do tabaco cultivado na chitaca. Saudade é a mulemba que ficou lá e não tem dia para lhe falar. Todos os dias ela está lá, como a Mãe!

1 Comentários:

Às 5:41 da manhã , Blogger Majo Dutra disse...

Achei muita piada à palavra 'chitaca'.
Há meio século que saí do Huambo...

Coloquei Dra Dorinda Agualusa no motor de
busca do Google e acedi a uma postagem
sua de 2014 que inclui uma carta da Dra.
Ainda é viva? Como está?

O seu blogue é interessante, é estranho
não ter comentários. Sabe porquê?

Voltarei para verificar se me respondeu.
Dias felizes.
Saudações blogueiras.
~~~~

 

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial