20 de julho de 2019

Escrevo amigo com apenas cinco letras


Escrevo amigo com apenas cinco letras
E ficam-me todas as outras para emoldurar a palavra
E rodeá-la de folhas flores e frutos
Estender as mãos e os dedos
Abrir os braços
Cruzar distâncias e construir navios

Quando te conheci ainda não havia escrita
Nem cores nem raças nem religiões
E a brancura dos teus dentes
Iluminava-te o sorriso como se o sol nascesse
Nas quilhas frágeis que abriram o mediterrâneo
Aos fenícios e aos cartagineses
Para que o nilo pudesse ser o rio que é
Tão longo como o abraço que nos une
E tão estreito como a distância que nos separa
Mesmo depois de inventarem mares e continentes
E planetas longínquos
E estrelas para além deles e desta luz que nos brilha nos olhos

Ainda hoje quando escrevo amigo
Também escrevo cadeira e prato e peixe
E me sobram todas as palavras
Quando te sentas à mesa
De olhar doce e braços nus
Como se do mar nos chegasse o cheiro a maresia
E a cor única das acácias que nos perfumaram a infância
Tens os pés descalços
Pousados sobre a areia fina
Onde não chega a fúria das calemas
Mas se sente a brisa fresca afagando as casuarinas
E o voo dos pássaros no regresso a casa
Ao fim do dia é ainda este sentimento que fica
Este silêncio de veludo que nos aconchega
Este sussurro que nos amacia o olhar
E nos entra pelos ouvidos como se fosse uma balada
Quando nas mãos da noite
Chegam os sapatos de cristal
Que vão cobrir os teus pés simples de princesa
Porque a amizade é esta claridade de todos os momentos
Estas mãos e estes dedos
E este calor da noite que se estende pelo caminho
Que percorremos lado a lado
Como se fossem infinitas todas as horas




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