11 de Novembro

Tenho por África o mesmo sortilégio que tinha Albert Camus, nascido na Argélia, festejado em França, celebrado no mundo pelo sincero espírito de independência que conseguia transmitir. Devo-lhe das mais belas páginas que li na vida e fiz dele o mito que me acompanhou por anos e anos. De memória recordo uma tão curta frase sua que apenas salientava que ao menos em África o mar e o sol são de graça. O que é verdade. Mas, para avaliá-lo, é preciso conhecer África ou, como se dizia em Angola, é preciso ter bebido água do Bengo.
A Europa e Portugal não conhecem África. E não a conhecendo não a compreendem. Nunca se importaram em conhecê-la e continuam a não se importar. Importa que tenha recursos naturais. Que tenha diamantes, ferro, petróleo. Que ali se possam produzir o café, o sisal, o milho. Que o girabola possa, de tempos a tempos, alinhar um José Águas, um Carlos Duarte, um Mário Torres, um Yaúca. E incutir nos seus dirigentes o desiderato de um sistema democrático, com eleitos e instituições.
Mas o grande problema de África, e nomeadamente de Angola, nunca chegou a ser político, nunca tão pouco se alcandorou ao patamar do racial. Manteve-se como tribal, sem carga pejorativa e com o respeito que se lhe deve. Porque são múltiplas sociedades, múltiplas regiões, culturas plurais e variadas línguas. Não se entende esta realidade a partir do Terreiro do Paço, tão pouco da Gomes Teixeira. Nem sequer da Ponta Vermelha ou do Futungo de Belas.
Que Angola, o seu povo e todas as suas tribos, de Cabinda - enclave geograficamente separado do resto do território - ao Cunene, possam ter no futuro a esperança que o passado lhes não trouxe. Que lhes garanta o direito sagrado à vida, à paz e ao alimento.
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