24 de setembro de 2012

15 de setembro de 2012


As manifestações voltaram às páginas dos jornais e aos noticiários das rádios e das televisões. De forma abreviada e depreciativa um jornal perguntava-se, ontem ou hoje, se as “manifs” tinham voltado para ficar. Até há pouco tempo acreditei, e acredito, que muita coisa é escrita por simples ignorância. Exceto quando é o senhor Pulido Valente a escrever, do alto da sua cátedra, empunhando a sua caneta Montblanc que, se calhar, também foi o contribuinte pobre a pagar. Ou do seu canto no Gambrinus, com uma garrafa de uisque de 20 anos a decorar-lhe a mesa, enquanto a cozinha lhe apronta o bife, convenientemente inscrito na lista com um condizente e estapafúrdio nome francês.


Hoje acredito também que a par da ignorância está a má fé, o propósito ilícito, o desígnio cavernoso, cada vez mais a intenção criminosa. Cada vez mais também, somos governados por uma ditadura feroz que obedece a ordens da alta finança externa, porque a interna não ultrapassa, a esse nível, a dimensão dos trocos. Desde a revolução dos cravos – como se alguma vez em algum lugar uma revolução se fizesse, e triunfasse, empunhando flores! – que a degradação e o descaminho têm sido progressivos. E a desgraça acentuou-se a partir do consulado do senhor Silva que, da sua ignorada freguesia algarvia, resolveu aproveitar um fim de semana para ir fazer a rodagem de um automóvel novinho em folha, adquirido com uma entrada de alguns trinta por cento e de talvez quatro dúzias de prestações mensais.

Vimos todos no que deu. O homem acabou em primeiro-ministro esbracejando por ficar na história, mandando construir pontes, centros comerciais e exposições internacionais onde alguns mestres de obras viraram empresários de construção civil, edificaram condomínios fechados, enriqueceram e distribuiram prebendas e comissões. Para confirmação do princípio de Peter acabou em Belém, dizendo hoje uma coisa e amanhã outra, sem habilidade, sem sentido e sem vergonha. E tendo por futuro uma reforma de merda que, segundo o próprio, lhe não dará para pagar as despesas e lá terá de ser o zé povinho a pagar-lhas e a fornecer-lhe gabinete, automóvel, secretária, motorista e esquife coberto pela bandeira nacional, quando chegar a altura.

Por tudo isso e pela enciclopédia de trafulhices que continua por escrever, 15 de setembro é uma data, muito mais do que uma manifestação. É um marco porque, segundo os jornais, perto de um milhão de pessoas terá saído à rua por esse país fora. De forma espontânea, sem o enquadramento de partidos políticos, de sindicatos ou de grémios patronais. Uma manifestação não é nada por si só. O milhão na rua é uma réstea de esperança, há que fazê-lo crescer para dois, quatro, seis milhões. A esperança vem-nos da única força que nos resta: a de sairmos à rua de peito aberto e de aí nos mantermos até que o regime mude. Porque o problema não é de mudança de governo, com o que apenas se tem conseguido um governo ainda pior. E que apregoa, como este, as vantagens dos empréstimos mendigados a taxas de juro de agiota e sob tutela dos verdadeiros donos da Europa.

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