10 de setembro de 2012

Manifesto

Face à indescritível situação que atravessam, o povo e o país não precisam nem de palavras nem de manifestos. Mas precisam ambos, urgentemente, de tomar consciência da gravidade dos dias que correm e da definitiva falência do regime político em que cada vez mais chafurdamos. No tempo de uma anterior ditadura, que proclamava que Portugal era uno e indivisível do Minho a Timor, o país roubou-me, a mim e a muitos outros, alguns quatro anos de vida. Em defesa da Pátria, ensinavam os professores nas escolas e sentenciavam os párocos do púlpito abaixo. Como se isso existisse, como se isso fosse alguma coisa.

Apenas porque, na década de cinquenta, António Salazar não foi capaz de ver mais do que um poder pessoal obsessivo e a forma ditatorial de o manter e, se possível, consolidar. Não lhe sobrou uma pequena réstea de visão política que, pelo menos, o alinhasse com os ventos da história. Como se sabe, ou como devia ensinar-se, ele e o regime cairam da cadeira, ambos velhos e decrépitos. Caetano, apesar dos anos que ocupou a cadeira do poder, de facto não existiu. Foi apenas uma excrecência do que já vinha da década de vinte, um lavar de cestos, um canto de cisne.

Abril de 1974 acabou, assim, por não ter sido sequer uma revolução. Uma chaimite na rua fez desmoronar o que ainda restava do regime. As coisas foram tão simples, tornaram-se tão fáceis, que um grupo de capitães acabou por deslumbrar-se e, sem experiência, ir acreditando nos profissionais da política que foram surgindo no palco, impulsionados pela ambição do poder pessoal, das mordomias de estado, do dinheiro fácil e a rodos. Até ser completamente varrido do expetro político, vilipendiado, desacreditado, deliberadamente esquecido.

E Portugal integrou-se naquilo que aprendemos ser um continente e hoje é referido como se fosse um país: a Europa. A Europa é, em boa verdade, um espaço geográfico que a Alemanha, no século passado, tentou dorminar pela força duas vezes. E que, quase no virar do século, acabou por dominar à força do dinheiro e do poder crescente da alta finança. A Europa é uma manta de retalhos, cada um deles travestido de democracia, e gerido como uma ditadura a partir de Berlim. E neste projeto a nossa brilhante classe política foi soterrando a esperança da nossa geração, o futuro dos nossos filhos, a existência como homens livres da geração dos nossos netos.

A economia virtual e a ganância de um vale tudo a que chamaram neoliberalismo, conduziram ao que, eufesmisticamente, se vai chamando crise e que, progressivamente, vai subjugando gerações. Definitivamente este regime democrático faliu e ninguém o diz. O país é tutelado por amanuenses e dominado por agiotas que exploram o juro e unilateralmente fixam as taxas de juro. Nada mais será recuperado com palavras e, menos ainda, com atitudes passivas deste povo sem emprego e sem futuro. Mas vestindo calças de ganga de marca e utilizando telemóveis de última geração.

É preciso apelar à consciência coletiva, à desobediência e à insurreição. A todos os níveis, em todos os momentos e em todos os locais. Em nome de uma réstea de esperança para a geração dos nossos filhos. Em nome de uma maior centelha de futuro para a geração dos nossos netos!

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