9 de setembro de 2012

Cinco anos


Durante cinco anos minha Mãe! Dia a dia, mês a mês, ano a ano. Não sei dizer-te como mas, arrastando-me, aqui cheguei. Na data e à hora exata, como se alguém ou alguma coisa pudesse impedi-lo. Sabes que aqui estaria sempre, mais triste, mais só, mais dilacerado pelas lágrimas que se me secam nos olhos, olhando-te calado como se sorvesse cada uma das palavras que não dizes. Não é preciso lembrar-me de nada, todas as recordações vivem comigo. Uma eternidade de cinco anos depois, como se fosse apenas meia hora que tivesse passado. Nunca vou perder-te, recuso-me. E não vou responder-te nada, basta que sintas o silêncio dolorido que te verto no regaço para que me entendas. Vejo-o no sorriso juvenil que salta da moldura onde estás refém de uma fotografia que espalhei por cada canto desiludido dos meus dias.


Só sei que me vens mirrando, e calo-me. Doce e tranquila como sempre foste e como te ensinou a vida amarga que te levou pelos primeiros carreiros da infância. Começou por se te mirrar o corpo, ao peso excessivo dos anos e da diabetes. Depois mirrou-se-te a memória recente, por força de uma Mãe tua, frágil, determinada e vertical. Deixando exemplos que o país não aprendeu e um trajeto que vem passando de geração em geração. A veneração que lhe dedicavas, o cuidado preocupado com que me perguntavas por ela, uma santa. E ela à sombra de um cipreste, o único, que a junta mandou abater, sem que houvesse outras sombras em volta. Como continua a não haver, nem de sobro que fosse.

Depois mirrou-se-te a consciência, o que mais me doi, ao peso da idade e da arterioesclerose. Começaste a mirar-me, silenciosa, recriminando-me pelas ausências longas. Que não davam tempo ao ponteiro dos minutos para que desse a volta ao mostrador do relógio que guardo no meu peito. Alternaste o sorriso breve com o choro silencioso. Sem palavras e sem lamentos. Sei de cor todas as palavras, não precisas de mas dizer, soltam-se-me as lágrimas só de as evocar. Mas não sei de nenhum lamento, nunca to ouvi, não posso recordá-lo.

E pergunto-me, minha Mãe, como é possível que nunca te tenha ouvido uma queixa, um lamento, um desabafo. E continue a não to ouvir passados que são estes cinco anos em que se te mirrou ainda mais o corpo e a consciência. E a minha saudade se chama choro e a minha vida se chama desesperança!

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