21 de outubro de 2012

Café Onital: Tarde de música e poesia


Ali, à esquina onde a Rua de Latino Coelho, num declive suave, desagua tranquilamente na Rua de Santos Pousada, há um café de que me lembro desde que os meus passos cruzam as proximidades. Ostenta um nome meio atípico e é local que pouco frequento, porque vai no sentido contrário aos dos destinos que habitualmente persigo. E ainda porque, sinceramente, não sou gente de café, nem de jardim, nem de estar quieto enquanto os minutos se escapam do relógio. Entro, compro um gelado, enventualmente sento-me, tomo um café de um trago, já as pernas se me entorpecem, dou por mim a esticá-las de novo no espaço dos quarteirões próximos.

Uma vez por outra o café afixa um pequeno cartaz num dos vidros que o rodeiam e anuncia um qualquer evento por cuja natureza nunca me interessei e cujo conteúdo nunca me levou lá. Para hoje, às 16 horas, anunciava uma tarde de música e de poesia. A curiosidade levou-me a ir espreitar, entrar, encontrar a sala cheia, encostar-me ao balcão e a pedir um descafeinado. E a ir acompanhando os dois poemas que cada pessoa dizia, chamada por um apresentador que, tanto quanto vi, não usava guião e conhecia toda a gente pelo nome e pelos hábitos.


O acontecimento surpreendeu-me. Primeiro porque é promovido por um café, que encerra ao domingo, sem subsídios do Dr. Rio ou da Secretaria de Estado da Cultura. E que conta apenas com o contributo ignorante do fantasma Gaspar que, como a todos aos do sector da restauração e a mando da Sra. Merkel, estabeleceu o Iva na sensata taxa de 23 por cento que o zé povinho paga, bufando ou não.

Depois pela ingenuidade das coisas simples mas sinceras, como as palavras que se espalham pela sala, saídas diretamente do coração, sem hesitações ou paragens intermédias. E no meio das quais há alusões a Manuel António Pina, que esta manhã de domingo levou a cremar no cemitério do Prado do Repouso. Há poemas de Torga, de Ary dos Santos, de Florbela Espanca, de Camões. Até do angolano Viriato da Cruz, se calhar sem que a maioria dos presentes saiba onde é o Loge ou o que é um maboque. E, intercaladas com os poemas ditos, há baladas cantadas por quem também verseja, que se acompanha à viola, e que deixam no ar o aroma da memória sempre fresca de Zeca Afonso.

E o evento, pelos vistos, tem periodicidade mensal. Assinalo o facto e louvo a tarde, o café e as pessoas que ali se reunem e partilham entre si aquilo de que gostam: a música e a poesia.

1 Comentários:

Às 11:25 da manhã , Blogger daniel correia disse...

Muito grato ficamos pelo seu comentário e convidamos a vir assistir as nossas tardes de poesia que acontecem sempre no ultimo domingo de cada mês as 16:00 horas
É bom sentirmos que haja clientes com uma certa cultura literária o que faz com que a poesia cresça cada vês mais.
Os nossos agradecimentos
Daniel Correia e Jorge Vieira

 

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