15 de outubro de 2012

Um país que se reduz a um palheiro


Um país que não tem um conselho de ministros que se reuna durante vinte horas seguidas, sem interrupções sequer para ir verter águas ou ir trincar uma bifana e beber uma cervejola, é obviamente um país de preguiçosos. De indigentes, de calaceiros, de mandriões e de madraços.

Um país que não tem um conselho de ministros que se reuna às oito horas de segunda feira para retocar o orçamento de estado até ao último momento, é obviamente um país com um antiquado horário de trabalho de quarenta horas semanais, a exigir reforma. Que ainda se espreguiça na cama e se esforça por remover a ramela dos olhos, quando deveria estar entregue ao esforço de aumentar a produção e contribuir para a subida do Sr. Américo Amorim na lista dos mais ricos da revista Forbes.

Um país que não encerrou escolas às centenas e que não deixou no desemprego milhares de professores é um país que obviamente nunca foi à missa ouvir os sermões do senhor cadeal patriarca e que nunca se preocupou com o estado social que protege os reformados, o milhão de desempregados e a injusta clausura do Dr. Duarte Lima, com uma pulseira eletrónica amarrada ao tornozelo.


Um país em que os seus parlamentares temem a ignomínia de ser transportados num Renault Clio é obviamente um país de pelintras que não sabem que a democracia tem custos e que vestem fatos do Rosa e Teixeira, com as ceroulas encardidas por baixo, ignorando o que significa a dignidade dos cargos e a justiça do congelamento de salários e do confisco dos subsídios.

Um país que não trata os seus ministros familiarmente pelo nome próprio é um país que obviamente os não merece e não pode aspirar a outras intimidades nem, tão pouco, a ter um Magalhães em casa, com a eletricidade cortada e uma folha de cálculo que não serve para projetar o futuro, desde D. Afonso Henriques, saltando o domínio dos Filipes e outros pormenores de que apenas o Sr. Aquilino Ribeiro sabia.

Um país que não tenha o melhor povo do mundo é um país sem auto-estima que não merece o seu ministro das finanças nem a sua voz de cobrador do fraque, quando um orçamento estropiado é parido à força no exato dia em que faz 72 anos que foi lançado O grande ditador, de Charles Chaplin, vulgo Charlot.

Um país destes não existe, não é sequer um sítio que mereça uma linha da ironia do Sr. Eça de Queirós. Que se pode dedicar, por inteiro, ao cozido à portuguesa, à mesa do palheiro do Sr. José Estevão, na Costa Nova.

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