2 de outubro de 2012

Unanimidade


Não se pode dizer que o governo tenha perdido o decoro e a vergonha. De facto nunca se perde aquilo que se não tem. Por um dia destes uma imagem, algures na rede, chamou-me a atenção pela piada e pelo tiro certeiro. Num hipotético desfile de prostitutas, uma delas empunhava um cartaz dizendo mais ou menos: “indiquem-me um político honesto e eu indico-vos uma puta virgem”. Tão difícil como encontrar uma agulha num palheiro, nos dias longínquos em que se usavam agulhas e se utilizavam palheiros.

Mas, que eu me recorde, nunca nenhum governo foi tão unanimemente acarinhado pelos portugueses como este. Nem mesmo o do tenebroso Dr. Salazar, que nomeava ministros utilizando um bilhete e os demitia por uma notícia de jornal. O Dr. Salazar ficou conhecido por diversos epítetos, alguns dos quais uma antiquada educação me impede de reproduzir. Mas um deles, inofensivo e decente, era o “esteves”. Por uma razão simples, ele nunca estava, já tinha sempre estado. Os noticiários da noite proclamavam: sua excelência o senhor presidente do conselho, professor Oliveira Salazar, esteve esta manhã no Porto, tendo admirado a imponência do edifício do mercado do Bolhão de dentro da viatura que o transportava, enquanto esta descia a Rua de Sá da Bandeira, a alta velocidade, para não prejudicar o fluxo de trânsito.


Ao Dr. Passos, tardiamente licenciado e sem estágio feito, afilhado e empregado de um ex-ministro que viu as portas sabotadas com palitos de tirar os restos de bacalhau dos dentes, não se pode exigir nenhuma qualidade parecida com as do Dr. Salazar, excetuando talvez a vocação autoritária, para continuar com a linguagem moderada. E nenhum dos  seus ministros, tenha a graça que tiver, de Álvaro a Paulo, de Gaspar a Macedo, pode ser comparado a um Rapazote, a um Varela, a um Santos Costa ou a um Nogueira. Salazar podia ser um ditador – condição que quase ninguém contesta, nem o Dr. Paulo Portas – mas era um homem inteligente e culto. Mais do que o Dr. Passos e até mesmo que o Dr. Borges exceto, quanto a este, nas suas próprias palavras.

De forma que o Dr. Passos e os seus ministros nem estão, nem estiveram. Incondicionais defensores do povo, do seu bem estar a da melhoria das suas condições de vida, evitam as manifestações de apoio e de regozijo por, ao menos no desemprego, seguirmos no pelotão da frente desta manta de retalhos que é a tal União Europeia. E, no caso do que ainda resta das ruínas do mercado do Bolhão, anunciam a visita e a entrada pela porta principal, na Rua da Sá da Bandeira, para depois entrarem a correr pela porta das traseiras, disfarçados no meio de alguns comerciantes de legumes, e se escapulirem pela primeira escapatória onde o automóvel os espera, de motor a trabalhar e motorista a postos para arrancar, uma hora antes. A alta velocidade, com os batedores à frente, a abrir caminho, até à autoestrada para Lisboa que é, como se sabe, aquilo que o Terreiro do Paço mais admira na invicta.

E que à entrada nenhum dos vendedores utilize o vocabulário a que está habituado. Se o fizer, mesmo por descuido, será forçado a abandonar o portal onde se acolhe por um diligente segurança que impedirá todas as câmeras de registar imagens e será voluntáriamente convidado a identificar-se com alguns certeiros golpes de kungfu. Para no dia seguinte a direção do mercado levantar o correspondente processo disciplinar e aplicar a inevitável coima. Se não houver lugar a despedimento. Enquanto os serviços de segurança proibirão o Dr. Passos de visitar a Ribeira e assistir ao futebol no estádio do Dragão!

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