18 de outubro de 2012

No futebol como nas finanças...



No futebol como nas finanças Portugal investe fortunas na formação. Por ambição? Para melhorar o medíocre ou mau estado de coisas? Não, por simples e puro masoquismo. Por acto surrealista que inspirou Alexandre O´neill para escrever poemas inesquecíveis e Eça de Queirós para lavrar verdades históricas com uma antecipação superior a cem anos.

No futebol construiram-se estádios de que se não precisava e, pior do que isso, para que não havia dinheiro e que ainda hoje se não sabe como virão a ser pagos. Alguns em sítios onde o futebol não era mais do que um negócio de fim de semana, entre solteiros e casados. Serviram para dois jogos do Euro 2004 e, daí para cá, não são pasto para vacas porque o ministério da agricultura liquidou a agricultura, a pecuária, a pesca e tudo quanto mexesse à volta, excepto o subsídio. No Allgarve foi edificado um, numa região onde não havia nenhuma equipa a competir no escalão superior da bola indígena. Deu-se-lhe um nome sonante e pretencioso: estádio de Faro-Loulé. Não serve para nada, nem para que os pescadores de Olhão estendam as redes a secar, enquanto a maré sobe e a faina aguarda.




Em Leiria foi construído outro, onde o clube da terra era dirigido por um dos portugueses empreendedores que dão empresários de sucesso e gestores de alto gabarito. E que, por casualidade, acabou detido há dias por frequentar demasiadas igrejas, assistir a elevado número de missas e trazer um terço pronto em cada bolso, para o padre nosso, para a avé maria e, agora, para a salvé rainha. O clube já tinha sido despromovido, por excesso de rigor e exagero no cumprimento, mas não usava o estádio. Ia jogar à Marinha Grande que, como se sabe, é a localidade que fica mais à mão para quem vive na Praça Rodrigues Lobo. Por inutilidade, foi posto à venda, em hasta pública. Não apareceram interessados na compra, só na comissão. E os concursos ficaram vazios!

Nas finanças construi-se uma ponte para atravessar o rio Tejo, de Lisboa a Alcochete, que custou uma fortuna para além daquela que o rigoroso orçamento e as dezenas de economistas estimaram. Demorou mais tempo a definir o local onde ia ser erigida do que aquele que teve de esperar pelo primeiro automóvel que a atravessasse. Por questões de ambiente, de ecolologia e de dois casais de pardais que vergavam os canaviais à força do papo cheio. Nenhum deles era ainda um tal de Sócrates, conhecido pelo exercício físico feito no Kremlin, no Outlet de Alcochete e nos Campos Elíseos. Fez-se uma Expo 98 que continua a entrar-nos no bolso disfarçada de fundação. Para variar custou o dobro do que os competentes peritos estimaram e o governo transcreveu no orçamento. Alguém foi responsabilizado por isso? Sim, o pobre do contribuinte a quem se impôs que pagasse enquanto o construtor civil edificava condomínios de luxo, especulava nos preços, atribuía mordomias e pagava comissões. Ah, e tiraram-se ilações políticas, mudando o primeiro-ministro para um palacete em Belém, com vista para o Tejo e anexos para os criados.

A megalomania levou a construir um CCB, acrónimo que indistintamente dá para centro cultural ou centro comercial. E que, consoante as circunstâncias dá para armazenar uma colecção de arte do comendador Berardo, pagar-lhe pelo subido favor de lá ter os trastes guardados e permitir-lhe que nomeie gente da sua quinta para receber os ordenados e arrecadar as gorjetas. Ou para o engenheiro Belmiro instalar um hipermercado com o bife ao preço da uva mijona e as frutas importadas de Espanha a metade do preço do tomate do vale de Santarém. E um conjunto de duas dezenas de caixas para prevenir o roubo e guardar os trocos.

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