23 de novembro de 2012

Quem tem cu tem medo


Já não me recordava da data e foi o jornal Público a recordar-ma. Mas memorizei subconscientemente as imagens que os noticiários televisivos me ofereceram no passado dia 14, com equipas de reportagem a acompanhar o acontecimento em direto. A princípio, de um lado, um conjunto de manifestantes, aparentemente rotos, maltrapilhos e inofensivos, mas valentes, desalinhados, desarmados, descontentes, desconfiados, desempregados e desprotegidos da vida e do estado social. Berrando impropérios, cuspindo para o chão, fumando tabaco barato e olhando em frente, como um grupo de amigos de uma tertúlia, aguardando a largada de touros nas ruas de Vila Franca de Xira durante as festas do Colete Encarnado, preparando-se para as pegas, as correrias, as poses para a assistência e as fugas descontroladas à procura da proteção providencial das tranqueiras.

Do outro lado as bestas, de olhar metálico e feroz, nervosas, os cascos ressoando na pedra do terreno que ocupam, mortas por ação e sangue. Sem o enquadramento de campinos garbosos, montando cavalos enfeitados para a festa, nem chocas de cornos longos e retorcidos, mas com cães ao lado, latindo, aos pulos, impacientes no treino recebido e no desejo de agarrar a vítima pelos fundilhos e ferrar-lhe os caninos nas nádegas indefesas e carnudas. Espumam, ameaçam arrancar, desistem, olham em volta como se tudo fosse lezíria, atemorizam, dão uma passada atrás.


No hemiciclo, para lá da proteção confortável das tranqueiras, está toda a pouca gente importante que comanda a festa e o país. Foram vendidos à populaça que se empoleira nas escadas e se debruça das varandas com a mesma técnica de embuste com que se vendem os detergentes para a roupa. Todos tiram as nódoas mais difíceis, lavam mais branco e cheiram intensamente a lixívia. E acotovelam-se transidos de medo, tremendo de cagaço, receando que a maralha descontrolada possa transpor as proteções, enxuvalhar fatos e provocar hematomas.

Quem tem cu tem medo e o medo não é grande conselheiro. E pode prejudicar a determinação patriótica com que a pouca gente importante se entrega ao saque, ao estado social, ao querido leader e nos hipoteca à troika.. De forma que as medidas preventivas não se fizeram esperar e no dia imediato estavam a ser instaladas câmaras de filmar por cima de cada acesso aos paineis de proteção. Para identificar a maralha? Não! Apenas para a contar “em caso de catástrofe ou outra necessidade urgente”. Porque a pouca gente importante, vendida como detergente, não sabe que o sonho comanda a vida. Como não sabe que para contar manifestantes basta contar-lhes as pernas e dividir por dois. A menos que haja quadrúpedes infiltrados, o que complica o sonho e dificulta os cálculos!

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