2 de novembro de 2012

Um pouco mais a sério


Não será grande adivinhação presumir que o homem foi, desde sempre, o maior inimigo de si próprio. A ambição e a ganância justificaram, desde sempre, a escravização do próprio semelhante. O poder político sempre foi exercido ou esteve submetido ao poder económico. Alguma coisa mudou em determinado momento, ou pareceu mudar. Pareceu e poderia ter sido um princípio, quando se começou por, ao menos, de tempos a tempos, ascultar a opinião do povo. Sempre de forma condicionada, apesar de tudo. Excluindo os menores, o que é compreensível, excluindo mulheres, excluindo analfabetos, excluindo pobres.

Chamou-se ao sistema democracia. Representativa, e exercida por hipotéticos representantes do povo, que também se incubiram do estabelecimento das respetivas regras. Seria de esperar que o sistema evoluisse, são a dinâmica e o sonho que comandam a vida. Mas não evoluiu o suficiente, nem de forma sustentável como diz o chavão. Pelo contrário, as coisas foram regredindo, muito rapidamente nos últimos vinte anos, ou algo mais.


Algumas facilidades permitiram aquilo a que chamam globalização e, com ela, o salve-se quem puder e o caminho para um novo tipo de sociedades precárias, instáveis, sem presente e sem futuro. Os valores adoptados foram subvertidos, tudo passou a ser provisõrio, inseguro e perigoso. Como pai gostaria de legar aos meus descendentes condições que lhes permitissem uma qualidade de vida superior à que tive. Creio que este será o desejo básico de qualquer pai, sensato, preocupado com o seu semelhante e sem ambições desmedidas. Mas já sabemos que assim não será, os nossos filhos terão uma vida mais difícil do que a nossa e os filhos deles também.

A nossa geração, e não apenas ela, hipotecou o presente e destruiu o futuro. E não será ela a pagar o custo incomensurável dos seus erros. A cada dia se estreita a faixa dos ricos que passam a muito ricos, que se afirmam trabalhadores como qualquer privilegiado que tenha trabalho e arrecade o salário mínimo. Do mesmo modo se alarga a faixa dos pobres que passam a muito pobres. Onde a fome mata indistintamente crianças, jovens e adultos, independentemente dos recursos disponíveis na porta ao lado. Enquanto se grita pela necessidade de reformas que aumentem a produtividade, instabilizem ainda mais as relações do trabalho com o capital e façam crescer exponencialmente os lucros e os dividendos.

Os gestores não são técnicos, são caciques cujo propósito único é aumentar os proveitos a qualquer custo, sacrificando direitos, esmagando morais, fazendo escravos daqueles que, como eles, têm atitude vertical e porte ereto da cabeça. E arrecadando, nessa condição, elevados salários, inumeráveis mordomias, inacreditáveis prémios. Sempre insatisfeitos, sempre clamando por normas que globalizem a ditadura, que legalizem todos os Biafras espalhados pelo mundo, que transformem torcionários em heróis. Globalizados.

No último fim de semana um quase pequeno pormenor terá passado quase despercebido nas manifestações de Madrid: cantou-se o Grândola vila morena! Acto que tem um significado que vai muito para além da distância que nos separa da capital espanhola: a resistência e a luta globalizam-se, adquirem nova dinâmica. Para enfrentar as dificuldades de sempre. Enquanto uma classe social vergonhosamente privilegiada, mais do que nunca, monopoliza todos os recursos materiais e todos os meios. Acreditemos que a globalização da resistência e da luta é o único caminho. Tem que se ir por aí!



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