8 de janeiro de 2013

Depois dos Reis...


Anteontem, domingo, dia 6 de janeiro, foi dia de Reis. Terminou, final e oficialmente, a chamada quadra natalícia. Felizmente e por um ano fica suspenso o pesadelo que, regular e periodicamente, sou obrigado a carregar como uma cruz ao calvário. Algumas poucas pessoas saberão porque o digo. E outras, também poucas, saberão que esse peso poderia ser ainda maior, porque há mágoas que não cabem na balança e que nenhuma báscula é capaz de suportar.

Não acredito no pai natal nem nunca acreditei. Nem sei se o Menino Jesus existiu ou não, que cor tinha, que religião professava, se frequentou a catequese e fez, como eu fiz, a primeira comunhão na igreja do Bairro de São João, tendo o meu querido padre Abel como pároco. Nem se havia reis magos, apeados ou montados em camelos, de raça branca, amarela, negra ou vermelha. Transportando incenso, mirra, mel, ouro e certamente bolicaos que se vendem no Minipreço ou no Pingo Doce. Aqui para serem pagos a dinheiro porque a administração não está na disposição de sustentar os chulos da finança como o governo vem fazendo com os bancos na bancarrota.


Sei apenas que os reis magos hoje são uma alavanca para o consumismo sem regras e sem limite, um fator de multiplicação para a fome e a pobreza, um instrumento para o engodo e para a desgraça. Enquanto cada vez mais as crianças vão para a escola sem pequeno almoço, a ilustre Isabel Jonet faz a apologia da caridade, o primeiro-ministro nos trata como um ditador sem a estatura do Dr. Salazar e, para si e para o seu gabinete, vislumbra a luz de um BMW topo de gama ao fundo do tunel. Enquanto, solidário, o Dr. Pulido Valente aplaude ou critica com entusiasmo, e de acordo com as conveniências do seu catavento, a uma mesa do Gambrinus com uma garrafa de wisky de 20 anos à frente.

De resto aproveite-se a quadra ou o que, em saldos, resta dela para dizer que não me revejo nem no Facebook nem neste país onde, com mãe incógnita, Eça de Queirós foi parido na Póvoa de Varzim, filho de um juiz que teria nas mãos o destino de Camilo e Ana Plácido, preventivamente encarcerados na Cadeia da Relação e absolvidos à esquina da Rua da Picaria. De nada valeria isso, o país iria parir outras sumidades como Vale e Azevedo, Dias Loureiro ou Duarte Lima. Todos bons chefes de família, patriotas, compadres de gente importante, adeptos de futebol, reclusos em andares de luxo ou em celas sem casa da banho privativa e habilitados a conduzir automóveis de alta cilindrada a velocidades que o código da estrada não permite. E Camilo acabaria em São Miguel de Ceide, sentado à escrivaninha, cego, ao som de um tiro que não falhou e a que, no quintal, a acácia do Jorge não deu a mínima importância.

Com reduzida presença nos últimos tempos, quero deixar expresso que esta página do Facebook ficará abandonada na valeta, à beira de um caminho por onde quase não passa gente e onde nada de novo acontece. Como no país! Pode ser que esporadicamente aqui venha, sempre que me ocorrer qualquer ideia que possa revestir algum interesse...

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