20 de janeiro de 2013

Domingo


Domingo. Quando o dia clareou era um mar de náufragos que amanhecia nos teus olhos. Braços erguidos, verdes, azuis, vagas de sete metros, as barras encerradas à navegação, todos os navios fundeados ao largo, o convés deserto de todos os marinheiros. Só mar para cá dos navios, a imaginação líquida para lá do horizonte e da esperança da fome ser só passado, já sem vítimas, sem memória e sem coordenadas.

Tu de braço dado com a persistência da chuva, os cabelos sem cor escorrendo-te pelos ombros, espalhando rios de sol e de futuro, só verde e calma, nos leitos e nas margens. Nem pescadores à linha especados à sombra esquecida da espera, inofensivas minhocas como isco, enforcadas nas pontas assassinas dos anzóis. Tudo como se Deus existisse e fosse daqui. Como se os rios não transbordassem e o mar, e a terra, e o céu fosse toda a harmonia de que nos contam os livros. E o azul fosse só um, sem tonalidades nem diferenças, azul tão claramente azul, sem azul nenhum, nem cor, nem preconceitos em que nos afogam o sonho e o destino.


Só nós e  este bando infinito de gaivotas, ameaçando o silêncio e o temporal que se precipita das estrelas, cassiopeia, ursa maior, cruzeiro do sul, para que lado fica o oriente? O mesmo oriente que Pessoa descobriu, entre a Ode Marítima e um copo de vinho numa taberna do Chiado. Só nós, duas mãos e um destino, os dedos entrelaçados na rigidez deste frio do inverno. Plenos de tudo e de esperança. A chuva persistente, o dia magoado, o sol que mora a oriente. O domingo também acaba!

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