O diálogo da porrada
Eu sou velho. A minha geração nasceu durante os anos da segunda guerra mundial ou naqueles que imediatamente se lhe seguiram, após o inqualificável bombardeamento de Hiroshima e de Nagasaqui. Nascemos num período conturbado e difícil que hoje, eufemisticamente, seria qualificado de crise, rodeados de carências e de dificuldades. Mas a geração dos nossos progenitores sacrificou-se, criou-nos, mandou-nos à escola, esforçou-se para que pudéssemos ter uma vida melhor e mais confortável do que a deles
Muitos de nós tiveram de se entregar
ao trabalho muito cedo na vida, para ajudar à precária e difícil subsistência
da família. Outros fizeram-no mais tarde, depois de fazerem estudos secundários
e, por vezes, superiores, concluindo até licenciaturas. Mas, e é isso que está
em causa, em todas as circunstâncias se arranjou emprego, com maior ou menor
dificuldade, mais ou menos modesto, melhor ou pior remunerado.
Fizemo-nos adultos
rapidamente, frequentamos bailes de garagem, arranjamos namoradas, casamos. E,
bem ou mal, com maiores ou menores dificuldades, provemos à nossa própria
subsistência, arranjando casa quase sempre alugada, alimentando-nos e
vestindo-nos e, uma vez por outra, indo a uma sala de cinema ver um filme, se
esse devaneio coubesse no débil orçamento à custa do qual sobrevivíamos. Mas
arranjamos emprego, casamos, arranjamos casa e vivemos à nossa custa desde
muito cedo, muitas vezes antes dos vinte anos.
Não são estas as
perspectivas da geração dos nossos filhos, independentemente de serem, como insistentemente
nos repete a classe política, “a geração mais preparada de sempre”. De um modo
geral todos eles estudaram mais ou menos, concluíram licenciaturas, são
doutores e, demasiadas vezes, desempregados ou contratados a prazo como
operadores de caixa de um qualquer supermercado. Não têm, de todo, meios
suficientes de subsistência próprios, não podem casar-se, nem alugar ou comprar
casa, nem ter filhos que garantam a continuidade da espécie. O país envelhece e,
por necessidade, tem de socorrer-se de uma imigração significativa, que o empreendedor
desavergonhadamente explora e o governo patrioticamente persegue como indigente
e criminosa.
O governo - todos os
governos - desde o momento em que a minha geração chegou ao mercado de trabalho,
até agora, que lá chega outra qualquer, deixou que as coisas chegassem a um
estado inqualificável, muito mais do que meramente lastimável. Espanta que os
jovens se contenham, se manifestem pouco, não reclamem, não exijam as condições
de vida e a dignidade que lhes é devida. E não é uma geração indigente, uma
geração amorfa, uma geração incapaz. É, muitas vezes, uma geração que se vai acolhendo
sob o alpendre familiar, conformando-se enquanto luta e persiste e, quando
pode, se endivida para a vida, ou se acomoda à sombra da mediocridade.
Há dias, a pretexto do problema da habitação, alguns jovens decidiram reunir-se e manifestar-se na cidade do Porto – Porto onde, recorde-se, germinou o movimento liberal que conduziu ao fim do absolutismo e trouxe de volta, do Brasil, a família real – fazendo-o, creio eu, ao abrigo das disposições legais aplicáveis. Montaram na Praça de D. João I algumas tendas e, como em todas as manifestações idênticas, terá havido alguns excessos que terão levado à violação das normas e terão dado cobertura a uma desproporcionada intervenção das forças policiais. Pessoalmente compreendo que as forças da ordem tenham por objectivo desmobilizar os manifestantes. Nunca compreenderei que para isso usem da força bruta, como tão frequentemente acontece. Como nunca compreenderei as declarações do presidente da Câmara, com a mesma subtil sensibilidade de um elefante numa loja de porcelanas da Vista Alegre. Nem as daquele deputado Paulo Núncio, herdado do botas de Santa Comba e da assembleia nacional do esquecido conselheiro Albino dos Reis.


