20 de março de 2026

A Primavera

São onze horas e vinte minutos. A Primavera, oficialmente, chega hoje, às catorze horas e quarenta e cinco minutos. Nesse momento vai extinguir-se o Inverno, deixará de chover e o vento desabrido irá serenar nos ramos do loureiro. O sol brilhará no cume do horizonte e espalhará calor pelas praças e jardins. As corolas das flores irão abrir-se para acolher o noivado que lhes virá nas asas diligentes das abelhas. Correrá bem a relação e dela nos virá o mel que nos adoçará o Verão. Todo o hemisfério Norte se concentrará no aplauso ao equinócio e ao bom tempo.

Entretanto algures, uma massa humana de um metro e noventa de altura, velha de quase oitenta anos, prosseguirá na erradicação da pobreza, suprimindo os pobres à força dos mísseis e do fuzil. Gastando à razão de doze vírgula sete mil milhões (como é que este número se escreverá?) de dólares por cada seis dias, que o sétimo é para Deus descansar.

Por mim ocupararei a Primavera a saber a taxa de câmbio, a converter aquele valor para euros e a contar o número de pobres que temos dentro de fronteiras, apesar dos heroicos discursos do governo. Para saber se o contravalor chegaria para dar a cada um uma sopa de couve penca, um par da sapatilhas e uma camisa usada, comprada na feira de Vandôma.