21 de março de 2025

Dinamarca – Portugal

Eu não sou viciado, nem em drogas, nem em álcool, nem em tabaco. Nunca me droguei, nunca bebi a não ser socialmente, seja lá isso aquilo que for, e se bebi sempre paguei a minha parte. E quanto ao tabaco, vejam lá, que este ano a efeméride me passou em claro: fez no dia dois trinta e dois (sim, 32) anos que deixei de fumar. De manhã, antes de ir trabalhar, fumei os dois últimos cigarros da minha vida. Que me tinham sobrado dos quatro maços (sim, 4) consumidos no dia anterior. Até hoje ocupo-me a pensar no que terei eu feito à fortuna que já poupei, porque não tenho um chavo. Também não sou viciado a ver televisão, nem em telenovelas, nem em futebol. Gosto de ver futebol como o via em garoto, no campo do Clube Desportivo Ferrovia, por onde passaram equipas da divisão maior do campeonato portuga. E não vou falar de mais vícios, isso queriam vocês, mas desiludam-se, cada um que se desenrasque como puder. E não digo mais nada, mas a época, como sabem, é muito condescendente com tudo e com todos.

Na televisão gosto de ver futebol mas sem comentários e sem apalpões. Os comentários dos especialistas, dos catedráticos do esférico, exponenciam-me a ignorância e reduzem-me a um Sancho Pança falando da vida quotidiana não sei em que galáxia, talvez ainda mesmo por descobrir ou por nascer ou mesmo onde ainda nem a CP chegou. Ontem decidi-me a ver o Dinamarca – Portugal, em Copenhaga (que até os catedráticos do esférico sabem ser a capital da Dinamarca) onde me lembro de ter chegado num dia à noite e encontrar os jardins do Tivoli cheios de gente bêbada, com camisolas e cachecóis dinamarqueses, sem nada para comer ou para beber, fosse em que tasca fosse. Nesse dia a Dinamarca tinha ganho à União Soviética (que se desuniu em não sei quantos países não soviéticos) e acabaria por ser repescada (à linha, com cana de pesca) e sagrar-se campeã europeia. E onde as raparigas, à noite, se expõem nas montras a mostrar as mamas, senão ninguém repara nelas porque as não devem ter muito vistosas. Apesar do desábito não tive dificuldades em seguir o relato do saudoso José de Vasconcelos. Onze rapazes de um lado, vestidos de vermelho (ou encarnado, sei lá, embora não seja daltónico) e onze do outro, vestidos de branco, como se fossem descendentes dos pastorinhos de Fátima. E um senhor vestido de preto. Com um apito pendurado ao pescoço e a bola na mão e que, pelo aspeto e pelo espírito autoritário, devia ser o dono dela.

Começou o jogo e logo do lado esquerdo, um afrodescendente vestido de branco ultrapassou um branco fdp e este desatou desalmadamente a perseguir o desgraçado do afrodescendente. Não era preto, era afrodescendente, que eu bem vi. Branco fdp era o gajo vestido de vermelho que desatou a persegui-lo sem motivo, bem como o cabrão (não vejo que haja palavra mais erudita para chamar ao gajo) do dono da bola que nem usou o apito. E o catedrátido do esférico que tinha o microgaitas desatou, com razão, a proferir uma sequência histérica de impropérios que até  eu cheguei a pensar que lhe estivesse alguém a telefonar para lhe dizer que lhe tinham violado alguma filha. Depois o afrodescendente atirou a bola a alguns vinte metros da baliza e o catedrátido com o rigor da cátedra e da fita métrica a relatar como o remate tinha sido ligeiramente mal medido e passado a centímetros da baliza. Que, se não fosse isso,de nada serviria o guarda redes que não conseguia encher a baliza e isso eu vi e garanto que não, que não enchia.

Mas o nosso guarda redes sim, não enchia a baliza, ele era maior do que ela. Porque o dono da bola resolveu implicar com outro afrodescendente (podiam arranjar uma palavra mais curta para dizer esta merda) que tinha tocado na bola com a mão mas via-se logo que tinha sido sem querer e vai daí marcou penalty. Penalty é assim: o guarda redes na baliza e o marcador com a bola na marca, se o marcador tocar duas vezes na bola, não vale e se o guarda redes se mexer repete-se que é para ele aprender a ficar quieto. Então o nosso guarda redes, cuja cara não me é estranha, acho até que já o vi por Miragaia ou nas festas do Senhor de Matosinhos, ficou tão quietinho que até doía e quando a bola já ía a entrar atirou-se pelo ar que até parecia uma cegonha e pimba, atirou a bola para fora do campo e até eu quase que bati palmas. Se ainda houvesse banda de certeza que tinha tocado o hino e o senhor presidente Marcelo tinha ficado em sentido

Deve mesmo ter havido alguma intervenção da irmã Lúcia porque a primeira coisa que o rapaz fez quando se levantou do chão foi fazer o sinal da cruz e não se ouviu mas certamente desejar as melhoras do Papa Francisco. O catedrátido do microfone ainda estava a gritar adjetivos que nunca ouvi ninguém usar, nem na Ribeira, e a dizer que ele era enorme, era imenso, era maior do que a baliza. Para ser franco, não sei, devo-me ter distraído, não reparei nisso. Mas o mais natural é que o homem tivesse realmente uma perna para lá de cada poste (parece que é assim que se chama) e o pescoço apoiado na trave, porque estar ali quieto, sempre parado, sem nada que fazer, deve cansar como o caraças. No fim dizia o catedrático do esférico que a seleção fora uma vergonha, fora péssima, tinha sido horrorosa. E que o selecionador, um castelhano de má fama, devia ter sido apanhado pela pá da padeira de Aljubarrota para saber como elas mordem. Fiquei por mim a desejar que a qualidade da exibição não chegasse aos ouvidos do doutor Salazar ou até do Afonso Henriques. O primeiro de certeza que os mandava de férias para o forte de Peniche e o Afonso Henriques dava-lhes cabo do canastro como fez aos cabrões dos mouros. E nem quero pensar no que faria o ministro da defesa, o doutor Nuno Melo, esse impoluto e indefectível patriota. Toma!

No dia mundial da poesia

No dia mundial da poesia

Um grito surdo

Um espesso escarro contra a cal branca da parede

Num dia de sol frouxo

Uma larga mancha infame

A desordenada peregrinação do povo da Palestina

Fugindo Faixa de Gaza abaixo

Faixa de Gaza acima

Arrastando os seus mortos pelos cabelos

Tentando furtar-se à metralha dos bons heróis

Que sobreviveram ao holocausto do século passado

Ferozmente armados até aos dentes

 

A poesia diária é tudo isso mesmo com dentes

Um horizonte de escombros fumegando

Tresandando a morte e a tragédia

Como se fossem fruta a cair de madura

Trazendo-nos o último e cavo lamento

De quem morre soterrado

Com cães a farejarem à superfície

Envolto numa irada revolta sem medida

Que há-de perdurar por todos os dias do futuro

Sempre ansiando por justiça

 

Mas antes da esperança

De que precisa uma criança?

De um peito farto de mãe em que se alimente

Olhando o teto que a proteja

Num horizonte largo que se veja

E  que se possa apertar com a mão quando se mama

 

As notícias da manhã foram diferentes

A judiaria cerrou os dentes e quebrou o cessar fogo

O que me levou a ter saudades de Castelo de Vide

Onde o branco das paredes brilha ao sol

E isso seja apenas o princípio

Porque correndo ou não pela Faixa de Gaza fora

Hão de morrer muito mais do que os quatrocentos que já morreram

 

E fico a pensar se as crianças

Sendo mais pequenas e com cabelos aos caracóis

Também morrerão mais depressa e cansando-se menos

Porque não há poesia nenhuma em que as crianças morram devagar



16 de março de 2025

Camilo Castelo Branco nasceu há 200 anos

O nome de Camilo Castelo Branco é por demais conhecido do país – e muito justamente - e associado ao título do seu livro mais divulgado: Amor de Perdição. Não será este romance o melhor que Camilo terá escrito, mas parte significativa do renome fica associado ao facto de ter sido escrito no tempo recorde de 30 dias. quando o autor estava preso na Cadeia da Relação do Porto,  acusado de adultério com Ana Plácido, uma mulher casada residente na Rua do Almada, a poucas centenas de metros dali. Ambos foram acusados, ambos estiveram presos na mesma cadeia, ambos foram acusados do mesmo crime de que acabaram absolvidos, ambos se casaram depois de Ana Plácido enviuvar e ambos viveram juntos em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, até que Camilo se suicidasse  em 1 de Junho de 1890, cego, aos sessenta e cinco anos de idade.

Faz hoje 200 anos que Camilo nasceu. Um dos grandes vultos das letras portuguesas que, por decisão própria, continua no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, no jazigo da família do seu amigo José António de Freitas Fortuna. Para singelamente assinalar o facto trago aqui a história de A Infanta Capelista, um livro já impresso e já em acabamento, que o próprio escritor mandou destruir quando ainda estava na fase de produção na tipografia a que a tarefa fora confiada, em 1872, na Cancela Velha, em pleno centro da cidade do Porto. Pouco ou nada conhecido é o livro e a história que esteve subjacente à decisão de Camilo de o mandar destruir. Mas não deixa de ser interessante referir que o escritor acabou sendo Visconde de Correia Botelho, por decreto de D. Luís I. São devidos agradecimentos ao Porto Canal e ao dedicado trabalho de Joel Cleto, a quem a história da cidade invicta já muito deve.

11 de março de 2025

O governo atirou-se do precipício abaixo

A Assembleia da República, constituída por 230 deputados em representação dos partidos políticos por que foram eleitos, discutiu esta tarde uma moção de confiança apresentada pelo governo do Dr. Luís Montenegro depois deste, em duas semanas, ter sido confrontado com duas menções de censura que, pelos vistos por comiseração, não colheram.

Em Maio de 1871 o senhor Eça de Queirós, recentemente levado a residir no mais luxuoso condomínio fechado do país, escrevia textualmente:

“A opinião tem pela Câmara dos Deputados um sentimento unânime e unanimemente declarado: o tédio.

Diz-se mal da Câmara por toda a parte. Os jornais mais sérios falam constantemente na sua improdutividade. Aparecem contra ela panfletos satíricos. Ela é geralmente considerada como um sórdido covil de intrigas. Se se pergunta:

- Que houve hoje na Câmara?

- Uma farsa – respondem uns.

- Uma feira – respondem outros.

Os jornais políticos vêm cheios destas fórmulas. “A Câmara deu ontem um espetáculo triste para quem preza os verdadeiros princípios…” “A Câmara está oferecendo a prova da sua falta de independência…” A Câmara salta por cima dos princípios mais rudimentares de administração.”

- O parlamento é uma vergonha. – diz-se nos cafés.

- Vamos aos touros! – exclama-se nas galerias (textual).

- Amanhã há escândalo! – murmura-se na véspera das sessões.

Fazem-se-lhe epigramas, põem-se-lhe alcunhas. Os folhetins escarnecem-na; os jornais de notícias contam com uma singeleza dramática: “Ontem a sessão passou-se em injúrias pessoais.”

A sessão de hoje, aquela onde se discutiu a moção de confiança submetida pelo governo, foi muito mais rasteira e muito mais pré-histórica do que eram as sessões a que, há 154 anos, se referia o rigoroso e justo senhor Eça de Queirós. A Assembleia perdeu completamente a vergonha, cada deputado se julga a última bolacha do pacote e, na sua imbecil ignorância, um modelo único desfilando no certame Moda Lisboa. O senhor primeiro ministro arrastou-se penosamente num discurso falso e irrelevante que não convenceu nem  nem um bêbado nem um defunto.

O governo perdeu literalmente o debate contra toda a gente, à esquerda e à direira, com ou sem extremos, inclusivamente contra quem, apesar de tudo, votou a favor da menção de confiança. O governo não caiu. O governo atirou-se do precipício abaixo!

8 de janeiro de 2025

Santa Engrácia te acolha tarde e devagar

“Leitor de bom senso, que abres curiosamente a primeira página deste livrinho, sabe, leitor celibatário ou casado, proprietário ou produtor, conservador ou revolucionário, velho patuleia ou legitimista hostil, que foi para ti que ele foi escrito – se tens bom senso! E a ideia de te dar assim todos os meses, enquanto quiseres, cem páginas irónicas, alegres e justas, nasceu no dia em que pudemos descobrir, através da ilusão das aparências, algumas realidades do nosso tempo.

Aproxima-te um pouco de nós e vê.”

[Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre]

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Não sou mais do que um pobre homem da Póvoa de Varzim, que nem sequer nasceu em casa de seus pais ou, sequer, de sua mãe. E que, menos de uma semana depois, foi a batizar a Vila do Conde, a alguns quilómetros de distância, sem se saber o nome da mulher que o parira. Portanto nascido irrelevante e anónimo. E assim fui andando, aos tropeções pela vida e aos trambolhões pelo mundo. Sem esperar dele mais do que a ignorância ou o desprezo.

Morto, contra minha vontade, no cosmopolitismo de Paris, mal deixaram que me arrefecessem os pés. Menos de um mês depois aí estava eu, de pantanas, a bordo de um navio que me devolveu a Lisboa, calado, inofensivo e quieto. Foi o facto muito celebrado e aplaudido. Tanto pela inconveniência que assim cessava como pelas dívidas que se me extinguiam.

Deu-me guarida o jazigo familiar e amigo dos Condes de Resende onde fui deixado, descansado e ao abandono. Até que interesses imobiliários me ameaçassem de despejo e o favor de remotos descendentes me levassem para Santa Cruz do Douro, onde já não me chegava ao nariz o perfume apetitoso das favas e da cozinha. Por ali fiquei uns tempos, num rústico e bucólico sossego.

Agora, finalmente, depois dos tribunais e das disputas, o estrelato e as parangonas nos jornais. Sem que eu possa ressuscitar, passear-me pelo Chiado, vestir Prada, eventualmente até adquirir a mansão de um ex-banqueiro falido na Quinta da Marinha. Talvez que pelas madrugadas a Dona Amália me presenteie com a tristeza de um fado. Ou que o senhor Eusébio me delicie com a magia dos seus toques de cabeça. E eu arranje inspiração para glorificar num romance a comunidade do condomínio privado do panteão.

 

5 de janeiro de 2025

Foi só o Sporting de Braga

Não foi propriamente o terramoto. E, por mais significativo que tenha sido o dia, não terá sido o dia D, nem tão pouco a Normandia. Quem, durante a noite e a madrugada, passou pelo Terreiro do Paço, encontrou todos os edifícios de pé e D. José, el-rei nosso senhor, garbosamente montado no seu cavalo, pronto a submeter a turba. Do cais das colunas não terão subido tropas anfíbias e submarinas, comandadas por um qualquer almirante sem covid e sem cargo, determinadas a reconstruir a baixa e a libertar-nos do opressivo e malévolo jugo espanhol. Do alto da Ajuda não chegou também notícia de que ali houvesse sido erguida barraca para alojar precariamente o vizinho do beco onde o chão haverá de ser salgado para que nem as ervas medrem.

No entanto há um novo Miguel de Vasconcelos, a quem se deu um nome mais actual e mais moderno, de melenas caídas para a fronte, vestindo roupas de marca, exibindo uma exuberante tatuagem no antebraço moldado pelo ginásio. Que durante quase oito semanas, até há oito dias, foi um intrépido e aplaudido condestável da segunda circular, alinhando as tropas em três quatro três, verticais, com profundidade, rápido nas transições, a toda a largura do campo de batalha, verde prado de erva fresca, com a generosa área de 7140 metros quadrados para repasto das bestas e alivio das aves de voo alto.

Depois, de há uma semana para cá, um incompetente de mau cheiro, discípulo de um qualquer alemão sobrevivente do III Reich, incapaz de entender duas palavras de português básico e de ver claramente visto aquilo que qualquer cego veria da última fila do terceiro anel, onde se bebia o vinho do pacote e se arremessava este para a frente com o benemérito anúncio do lá vai mijo. Sem mão na manada, irremediavelmente toldado pelo brilho das estrelas, sem rasgo nem ousadia, afunilando tudo, acagaçado e tosco como o mais rudimentar ajudante de trolha. Pede-se-lhe a cabeça, na praça pública, decepada de golpe único, como a da marquesa velha de Távora, como se ela tivesse aberto as pernas a el-rei nosso senhor, sem resistência e gemendo como qualquer freira de Odivelas.

Afinal foi só o Sporting de Braga que esculhambou a segunda circular e todos os 64.642 lugares da catedral da luz. Ámen.