24 de dezembro de 2025

É Natal

Há já muitos anos, nem eu já sei bem quantos, a sul do equador, não era nada disto. Não havia frio e da neve só se sabia dela pelos postais que chegavam do norte da Europa sem se acreditar muito que não pudesse derreter. Mesmo a luz era quase a mesma de todos os dias, baça e difusa, emergindo do candeeiro a petróleo pousado no peitoril da janela virada para a noite cerrada. A noite de Natal era um sacrifício, com a mesa farta e toda a gente sentada à sua volta, solene e circunspecta. A ementa não ajudava, com o bacalhau cozido importado da Noruega, como se já não houvesse carapau para secar no mar aberto de Porto Amboim. E o desperdício da batata cozida que podia aloirar-se no óleo sedutor e fervente, cortada aos palitos, na generosa frigideira pendurada por cima do fogão. Para mais, estava ainda por descobrir o fascínio da couve portuguesa, tão verde de frescura, tão tenra de folhas e de talos, aferventada em muita água e com lume forte, como só ela sabia fazer. Tão simples de fazer, tão difícil de conseguir fazer.

Depois, confortado o estômago, as pálpebras iam cedendo ao avanço da noite e ao peso do sono. A casa silenciava e o cachorro enroscava-se no seu canto. Às vezes um gato espreitava, silencioso e desconfiado, a uma das portas da sala. Minha mãe ia ao quarto do fundo buscar o alguidar onde a massa levedava há três horas e punha-o a seu lado, sobre um banco pequeno, de quatro pernas e um furo no meio. Despejava açúcar e canela num prato largo que punha sobre a mesa e empurrava-o para o meu lado. Não dizia palavra, não era preciso, eu já sabia o que tinha de fazer. Havia de enrolar na mistura cada filhós que, dourada, minha mãe retiraria da fritura e deitaria sobre um papel grosso para absorver o excesso de azeite. Uma vez por outra, ignorante e descuidado, uma ou outra iria ser submetida ao teste da prova. Seria bom sinal que me mantivesse calado, que nada dissesse. Como sempre e como em tudo na vida, só se reclama do que está mal. Nunca se enaltece o que está bem, o que merece elogio.

Nem era mais longa a noite, era só mais escura. O sol romperia o horizonte à mesma hora, indiferente às festividades e ao dia santo. Lá teria de me erguer à mesma hora de sempre, tirar a ramela dos olhos, vestir-me de camisa irrepreensivelmente branca, corada ao sol, calções de caqui e meias altas, sapatos a brilhar do esmerado brilho da graxa. Muito bem penteado, de risco ao lado, desenhado com a precisão do pente, rejeitando no cabelo levemente ondulado mais do que a água lisa da torneira. Depois talvez quinze minutos até à igreja do bairro, para a solenidade da missa e para a novidade do presépio, tão enfeitado de casinhas e de musgo, o menino muito pequenino deitado nas palhinhas como se tivesse de facto acabado de nascer. Haveria de suportar sem lamento a dor das areias sobre os joelhos de cada vez que tivesse de me ajoelhar e creio que terá sido isso a afastar-me da missa ou a deixar de usar calções. Depois haveria de vir o senhor padre, cujo nome retenho num grato canto da memória, com o menino na mão esquerda e um pequeno lenço na mão direita, a dar-nos a beijar o pé do Menino. E a passar-lhe o lenço por cima antes de o dar a beijar à pessoa seguinte, como se o desinfetasse.

10 de dezembro de 2025

Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assinada há 77 anos. Existindo a nossa pobre raça humana há não se sabe quantos milhões de anos, o período decorrido não passa de uma fração ínfima nesse trajeto, sem qualquer expressão numérica. Mas, apesar disso, diz o sábio povo português do interior profundo e remoto: mais vale tarde do que nunca. Como também diz que vozes de burro não chegam ao céu, sem quaisquer intenções de melindrar a respeitável raça asinina ou, tão pouco, de pôr o céu ao alcance do pontapé ou do coice de qualquer um.

A declaração foi assinada no Palácio de Chaillot em Paris, França., em 10 de Dezembro de 1948, como simples manifestação de intenções sem qualquer força jurídica. A sua leitura enumera princípios tão básicos que não se entende que não possam ser aceites, que se não respeitem e que, inclusivamente, tenham levado à abstenção de uma série de subscritores. Portugal, este nosso doce torrão natal, pioneiro a escorraçar os mouros de Lisboa e a levar a evangelização ao redor do mundo, na ponta da espada e do cruxifixo, supõe-se que tenha estado na primeira linha, de bic azul em punho, impaciente por pôr o rabisco no papel. Desenganem-se, nada disso. Portugal apenas a fez publicar no Diário da República de 9 de Março de 1978, quase trinta anos depois da sua aprovação, bem após a morte do estado novo.

Mas a pátria terá sido exemplar na sua aplicação e no seu respeito, pensarão vocês, caros compatriotas, de um extremo ao outro do patriótico hemiciclo de São Bento, respeitadores de D. Afonso Henriques, tementes a Deus e a Nossa Senhora de Fátima, devotos de Aljubarrota e do Santo Condestável. Bem, não exageremos. Não tenhamos pressa. Tenhamos em conta o atávico espírito de desenrascanço português. Contemos com a atitude empreendedora do nosso zé povinho, sempre pronto para o copo de vinho e para o manguito do queres fiado, toma. Arranjemos umas propriedades no vasto Alentejo, aproveitemos o descanso de alguns voluntariosos agentes da autoridade e utilizemos a necessitada força de trabalho de imigrantes vindos lá sabe-se Deus de onde, à míngua de tudo e de comida.

Sejamos empreendedores. Acolhamos umas centenas desses imigrantes, rotos e famintos, desalojados e ao relento. Pela alvorada alinhemo-los no pátio como se fosse uma parada militar. Façamos a chamada, anotemos as faltas, mobilizemos os agentes da autoridade, vestamos-lhes a farda de capataz. Levemo-los ao trabalho de sol a sol, sem interrupção e sem descanso, em regime forçado sob vigilância apertada. Nada demais, os dias são curtos, o tempo também. Reserve-se-lhes uma côdea seca e dura para o jantar. Deixemos que se empilhem para dormir, tresandando a mijo e a suor até à madrugada. Para se alinharem na parada na alvorada seguinte.

E tenhamos sempre à mão a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Que, em versão portuguesa, está acessível aqui:

https://gddc.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pdf

Gratuitamente!

24 de novembro de 2025

Este país não é para velhos. Nem para novos.

Das notícias:

Em Março passado havia, ocupando camas em hospitais, 832 pessoas a que tinha sido dada alta clínica e que aguardavam vaga para alojamento num lar. Algumas esperavam há mais de quatro anos.

Nós vivemos, desde o tempo da pátria una e indivisível, do Minho a Timor, à sombra de governos patrióticos que se sacrificam dia a dia para que nós, cidadãos, não tenhamos carências básicas e sejamos felizes. Do doutor António de Oliveira Salazar ao doutor Luís Esteves Montenegro, da casota na aldeia do Vimieiro ao casebre de seis pisos e elevador na Rua Oito.

Agora vocês acham que um governo, seja ele qual for, rural ou cosmopolita, que em quatro anos não é capaz de alojar um velho num lar adequado é capaz de contratar um médico para uma urgência hospitalar? Ou para o serviço nacional de saúde? Bem, então vocês também acreditam que o simpático e saudoso Clube de Futebol Os Belenenses, ali do Restelo, vai ganhar a Premier League este ano, tendo o Matateu como ponta de lança e o nosso D. Sebastião como ferveroso adepto na primeira fila da bancada.

Os governos, especialmente os patrióticos, pensam em grande, não perdem tempo com merdices. Viajam em avião próprio para a Amazónia, a salvar o planeta do bióxido de carbono que nos arranha a garganta quando bebemos Coca Cola. E aproveitam para dar um salto a Luanda para extirpar  o racismo da face da terra e prometer para amanhã mais contentores de lixo nas ruas, onde os pedintes e vadios possam vasculhar um resto de pão para enganar a puta da fome. Acompanhados das insispensáveis mordomias e das comitivas solidárias que couberem no avião. Os velhos? Ora, que se fodam!

11 de novembro de 2025

Angola, 50 anos

Angola celebra hoje, 11 de Novembro, cinquenta anos de independência. Uma independência tardia e atribulada. Tardia, desde logo, por culpa do país colonizador e, depois, da sua própria indefinição. Do país colonizador por força do estado novo e do seu dirigente máximo, o doutor António de Oliveira Salazar, cujo espírito mesquinho e curta visão não foi capaz de compreender os ventos da história que começaram a soprar com o termo da segunda guerra mundial. Da sua própria indefinição porque o 4 de Fevereiro de 1961 foi uma ação isolada, sem retaguarda e sem nenhuma organização que, de facto, a pudesse suportar. E o 15 de Março foi outro acto desencadeado noutra região, por gente diferente, que não deixava antever nenhuma luta organizada para além da chacina de populações brancas e angolanas de etnia umbundo.

Depois Portugal e o 25 de Abril de 1974 que, após quase cinquenta anos, apanhou no exílio, completamente desprevenidos, os opositores ao regime que se apressaram a regressar ao país e a ocupar o seu lugar na fila de espera de acesso às cadeiras do poder. De forma desordenada e desorganizada, exceptuando o pragmático PCP e o seu secretário-geral, doutor Álvaro Cunhal. Os militares, por si, que nunca pensaram que o regime pudesse cair com tamanha facilidade, não tinham nem preparação nem vocação política, viram-se com o país nos braços sem fazer a mínima ideia de como lhe calar a boca e acalmar os excessos. O fim da guerra colonial era um propósito a prazo, que protegesse a sua juventude da mobilização para as paragens de África, sem se ter a ideia de como e quando isso poderia ser feito.

Os movimentos de libertação das diversas colónias foram apanhados tão desprevenidos como os opositores ao regime, mas aproveitaram a oportunidade para pressionar as impreparadas autoridades portuguesas no sentido de reconhecerem o direito das colónias à autodeterminação e à independência. Todas as independências foram apressadamente agendadas para o ano de 1975, culminando com a de Angola, a 11 de Novembro. Em Angola, com o mesmo propósito e génese completamente distinta, havia três movimentos que combatiam o domínio português e se guerreavam entre si. Foi possível reuni-los à mesma mesa, para os acordos do Alvor, uma peça irrealista, abstrata e digna de um capítulo próprio nas peripécias de Astérix pela lusitânia. E tanto assim foi que, num ápice, o compromisso foi descartado, o governo de transição foi eliminado e os movimentos se lançaram numa guerra aberta perante a complacência e a passividade das autoridades portuguesas que, inclusivamente, deixaram ao abandono os colonos e as populações que pretenderam optar pela cidadania do país colonizador.

A 11 de Novembro de 1975 foram proclamadas três independências, em locais distintos, uma por cada movimento. Em Luanda, ao que consta sem a presença das autoridades portuguesas, o doutor Agostinho Neto proclamou a independência da República Popular de Angola sem que, sequer, Portugal a tivesse reconhecido de imediato. A jovem nação começou a ser inundada por um inimaginável arsenal bélico, de proveniência soviética ou sua aliada e por forças cubanas que ainda chegaram a tempo de suster as forças que marchavam sobre Luanda, quer a norte, quer a sul. Esta guerra fratricida, sempre à revelia e em nome do povo angolano, durou mais do que o dobro do tempo que durara a guerra de libertação e consumiu recursos, quer humanos, quer materiais que nunca se imaginara ser possível reunir. E acabou da única forma que se sabia ser possível, pela morte do líder de uma das partes e pelo aniquilamento militar do respetivo movimento.

Foi isto há mais de vinte anos e, desde aí, Angola é um país único e indivisível, de Cabinda ao Cunene, ignorado que seja o tratado de Simulambuco e as pretensões separatistas do enclave além do rio Zaire. Engenheiro de formação, José Eduardo dos Santos foi cognominado de arquiteto da paz, como se a paz pudesse ser um simples condomínio fechado em pleno Maiombe, no Soio, nas lagoas do Panguila, no planalto central do Huambo ou nas vastas terras do fim do mundo. Angola era antes e continua a ser um país imensamente rico em recursos naturais, que nem sequer interessa enumerar. A sua população, que em 1975 era inferior a seis, suplanta hoje os trinta milhões. Se à produção de petróleo fosse retirado um dólar, só um, por barril, não haveria em Angola quem morresse à fome, quem não tivesse abrigo, quem carecesse de assistência. E os que enriqueceram muito, os que são muito ricos, continuariam a ser exactamente isso: muito ricos.

E isso sim, isso faria de todos os governantes, de todos os dirigentes, de todos os responsáveis, de todas as zungueiras, verdadeiros arquitetos da paz e do desenvolvimento. É esse percurso que vos desejo a todos, quando celebrais os primeiros cinquenta anos de independência. Parabéns Angola, em meu nome e do meu sempre amigo José Sapalo, que já me faltava há cinquenta anos. E que nunca ouviu falar dipanda.

18 de outubro de 2025

18 de Ourubro

Outubro é o décimo mês do ano, o terceiro que começa com uma vogal, o único que se inicia com um ditongo. O mês que amanhece depois das vindimas, com os dias a encurtarem, até ao último fim de semana para que a hora mude, a caminho do solstício de Dezembro, em vésperas de Natal. O que me traz a insegura dúvida de sempre, a incerteza entre dois dias, sempre os mesmos, dezassete ou dezanove. Pois, nem um nem outro. Dezoito, que é hoje.

É sábado e é o teu dia. Alheio-me do tempo, cumpro a minha rotina. Entre as oito menos dez e as oito e dez cruzo e ponte do Freixo, para sul. Até à rotunda sul sei de cor todas as curvas, conheço todas as árvores, apercebo-me do seu rápido crescimento. Dentro dos limites do código da estrada, vou mais leve hoje, com uma ligeira excitação que me faz piscar os olhos sem noção disso. Na rotunda dos pastorinhos comprarei o jornal e tomarei café, depois descerei para a vila pela estrada de Alvega. E chegarei à mesma hora de sempre. Quase tão certo como um relógio suíço.

Faço o caminho sorrindo sozinho com o efeito inesperado da surpresa. A tua felicidade é o teu sorriso luminoso, com um ramo de flores pousado no regaço. Não dirás palavra, não farás comentários, a conversa será só nossa e ficará para mais tarde ou para o dia seguinte. Almoçaremos só os dois, ainda não sei onde. Mas talvez no fim queiras saber como terei descoberto a taberna para almoçarmos. De resto todo o tempo será pouco para ouvir as tuas histórias de vida, para aprender com elas, para saber como a humildade pode ser um caminho. Na Urtiga, à sombra de uma azinheira, com a serra estendendo-se à nossa frente. Uma estrada para uma felicidade simples e grata. No dia do teu centésimo décimo quarto aniversário. Hoje!