Seguro e As pontes de Madison County
Há três semanas o boletim tinha uma longa lista de candidatos, incluindo mesmo alguns que o não eram e nem sequer o tinham sido. Era preciso percorrê-la nome a nome, à procura daquele que queríamos para fazer a cruz no respectivo quadradinho. Hoje não, a lista era curta, incluindo apenas um candidato e um aborto. Fiz a cruz no quadradinho do candidato, dobrei o boletim em quatro e depositei-o na caixa pousada sobre a mesa. Gracejei com quem dedicava o seu dia ao trabalho para, mais tarde, termos um novo presidente da república e regressei a casa. Para passar tempo até que, à noite, viesserm as projeções, os resultados, os comentários dos especialistas e, inevitavelmente, a vitória de todos.
Por vezes sento-me em frente à televisão e vou percorrendo os canais um a um, à procura de alguma coisa que me interesse. Um deles passava, quase no fim, o filme As pontes de Madison County cujo nome recordo sem saber se o terei visto ou não. Fui vê-lo de início e fui-me rendendo à história, à forma como é contada e à maneira superior como Clint Eastwood e Meryl Streep a contam. Não me contenho e tenho de emitir um juízo, de leigo, sem conhecimentos e sem fundamentação de nenhuma espécie. A minha amiga Salette julgar-me-á ingénuo ou ignorante, usando palavras com outro perfume, e estará no seu direito, com conhecimento de causa: é a sua casa.
Eu passei por curto período
por um cine clube africano, quando todos eramos jovens e os meus amigos olhavam
com reservas para o cinema comercial, o único propósito do lucro, a exploração
básica das emoções do espetador e da receita de bilheteira. E eles me queriam
responsabilizar pela construção de argumentos para as nossas obras primas de
juventude, apenas porque eu era capaz de escrever duas linhas saídas da minha
cabeça, sem hesitação e sem erros de ortografia. Mas, comercial que seja, acho
que Clint Eastwood sabe muito bem contar histórias como realizador. E tem,
tanto como Meryl Streep, um desempenho que, para um ignorante como eu, é de
qualidade superior.
Pronto, então venha de lá
António José Seguro, para tomar posse no dia 9 de Março, para ter um desempenho
honesto, de homem comum e vertical, capaz de ajudar a salvar uma democracia
doente e incompleta, a que faltam princípios e valores. Porque todos nós,
afinal, temos alguma responsabilidade na escalada da doença, ao deixarmos
escapar princípios e valores fundamentais. Temos de os recuperar, temos de
consolidar a democracia, temos de construir um país menos desigual e mais
justo.


