16 de outubro de 2026

O diálogo da porrada

Eu sou velho. A minha geração nasceu durante os anos da segunda guerra mundial ou naqueles que imediatamente se lhe seguiram, após o inqualificável bombardeamento de Hiroshima e de Nagasaqui. Nascemos num período conturbado e difícil que hoje, eufemisticamente, seria qualificado de crise, rodeados de carências e de dificuldades. Mas a geração dos nossos progenitores sacrificou-se, criou-nos, mandou-nos à escola, esforçou-se para que pudéssemos ter uma vida melhor e mais confortável do que a deles

Muitos de nós tiveram de se entregar ao trabalho muito cedo na vida, para ajudar à precária e difícil subsistência da família. Outros fizeram-no mais tarde, depois de fazerem estudos secundários e, por vezes, superiores, concluindo até licenciaturas. Mas, e é isso que está em causa, em todas as circunstâncias se arranjou emprego, com maior ou menor dificuldade, mais ou menos modesto, melhor ou pior remunerado.

Fizemo-nos adultos rapidamente, frequentamos bailes de garagem, arranjamos namoradas, casamos. E, bem ou mal, com maiores ou menores dificuldades, provemos à nossa própria subsistência, arranjando casa quase sempre alugada, alimentando-nos e vestindo-nos e, uma vez por outra, indo a uma sala de cinema ver um filme, se esse devaneio coubesse no débil orçamento à custa do qual sobrevivíamos. Mas arranjamos emprego, casamos, arranjamos casa e vivemos à nossa custa desde muito cedo, muitas vezes antes dos vinte anos.

Não são estas as perspectivas da geração dos nossos filhos, independentemente de serem, como insistentemente nos repete a classe política, “a geração mais preparada de sempre”. De um modo geral todos eles estudaram mais ou menos, concluíram licenciaturas, são doutores e, demasiadas vezes, desempregados ou contratados a prazo como operadores de caixa de um qualquer supermercado. Não têm, de todo, meios suficientes de subsistência próprios, não podem casar-se, nem alugar ou comprar casa, nem ter filhos que garantam a continuidade da espécie. O país envelhece e, por necessidade, tem de socorrer-se de uma imigração significativa, que o empreendedor desavergonhadamente explora e o governo patrioticamente persegue como indigente e criminosa.

O governo - todos os governos - desde o momento em que a minha geração chegou ao mercado de trabalho, até agora, que lá chega outra qualquer, deixou que as coisas chegassem a um estado inqualificável, muito mais do que meramente lastimável. Espanta que os jovens se contenham, se manifestem pouco, não reclamem, não exijam as condições de vida e a dignidade que lhes é devida. E não é uma geração indigente, uma geração amorfa, uma geração incapaz. É, muitas vezes, uma geração que se vai acolhendo sob o alpendre familiar, conformando-se enquanto luta e persiste e, quando pode, se endivida para a vida, ou se acomoda à sombra da mediocridade.

Há dias, a pretexto do problema da habitação, alguns jovens decidiram reunir-se e manifestar-se na cidade do Porto – Porto onde, recorde-se, germinou o movimento liberal que conduziu ao fim do absolutismo e trouxe de volta, do Brasil, a família real – fazendo-o, creio eu, ao abrigo das disposições legais aplicáveis. Montaram na Praça de D. João I algumas tendas e, como em todas as manifestações idênticas, terá havido alguns excessos que terão levado à violação das normas e terão dado cobertura a uma desproporcionada intervenção das forças policiais. Pessoalmente compreendo que as forças da ordem tenham por objectivo desmobilizar os manifestantes. Nunca compreenderei que para isso usem da força bruta, como tão frequentemente acontece. Como nunca compreenderei as declarações do presidente da Câmara, com a mesma subtil sensibilidade de um elefante numa loja de porcelanas da Vista Alegre. Nem as daquele deputado Paulo Núncio, herdado do botas de Santa Comba e da assembleia nacional do esquecido conselheiro Albino dos Reis.

3 de maio de 2026

Porque hoje é dia da Mãe

Hoje é o primeiro domingo do mês de Maio do ano de dois mil e vinte e seis. Um dia de primavera, que amanheceu nublado, sem vento, deixando tombar uma chuva fraca, inesperada, que não promete resistir muito à marcha silenciosa do relógio. É um dia sereno, tranquilo, uma estante encostada a uma das paredes da sala, esperando pelos raios de sol.

Um repositório de memórias, uma invocação de dias passados, uma peregrinação pelo tempo. Tão longo tempo que tudo me parece eterno, sábias palavras saindo-te serenamente desse sorriso espontâneo com que enfrentas cada momento. Sorvo as histórias como se as não conhecesse, como se as ouvisse pela primeira vez, como se elas viessem do princípio do mundo para me trazer a esperança que o presente não promete a ninguém.

Junto à chada a mesma estrada desce para o centro da aldeia, sem lama, sem buracos e sem carros de bois. Negra, da cor do asfalto que a cobre, levando a locais distantes que conheces de cor e de que eu apenas ouvi o nome. A casa desapareceu e quase não há escombros que resistam. Apenas uma figueira espeta os ramos no céu vazio, no meio de esparsas oliveiras que vão resistindo a tudo, vendo definhar as velhas cepas abafadas pelos anos de abandono e de pousio.

Aflora-me à face um sorriso triste e a heroica valentia de tua mãe, serenamente devota, esforçadamente digna. Dando a cada filho uma sardinha sobre uma magra fatia de broa, e meu padrinho reclamando da que lhe coubera. Não porque fosse pequena, não porque estivesse mal assada, mas apenas porque era torta. Ao sorriso junta-se-me uma lágrima melancólica. E rio-me. Ao pobre, quando lhe cabe uma sardinha não é, sequer, uma sardinha normal, tem de ser uma sardinha defeituosa, torcida na confusão da rede, torta.

Hoje vou contigo, a pé, correndo atrás de ti, serra acima, à procura da azinheira na Cova da Iria. De vestido de chita, tiritando de frio, suando de excitação, até chegar ao cimo do monte onde, à volta dos bajancos de água, se amontoam pessoas olhando para as nuvens, à procura do sol. Confundindo-se com as pedras e com as azinheiras que dão alguma esperança à paisagem árida, em cujos ramos crescem as bolotas perfeitas aguardando o Verão.

Eram-te gratas estas memórias humildes que me embaciam os olhos e que me ardem no peito. Para te dizer tão simplesmente que estás aqui comigo. Hoje, num dia que consagram a todas as Mães. Todos os dias que são, como este, o dia de minha Mãe.

2 de abril de 2026

Celebração pobre e triste

A Assembleia da República assinalou hoje, com uma sessão solene, os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa, aprovada naquela casa no dia 2 de Abril de 1976. Os discursos, a que tiveram direito todos os partidos com representação parlamentar, foram generalizadamente pobres de conteúdo, olhando para o tempo passado e resgatando-o do esquecimento como se fosse a única e última maravilha do mundo. Exceptuando, para muito pior, para o que é humanamente inadmissível, os discursos de dois deputados, um Núncio, sem ser apostólico e outro Ventura com quem a ventura não foi nem pródiga, nem presente. Foram dois discursos de ódio que racionalmente ninguém pode subscrever como opinião ou como liberdade de expressão, mesmo nos impérios divinos dos senhores Bokassa ou Idi Amin de muito má memória.

Mais equilibrado, mas sem grande substância, o discurso do presidente da Assembleia da República, que se viu confrontada com o extremismo do nazismo que impropriamente se julgou extinto depois de 1945. E um discurso sério, equilibrado e racional, pronunciado pelo presidente da República, António José Seguro. O único que não vai resgatar o passado, que acha que as naturais imperfeições da constituição não justificam os fracassos dos cinquenta anos da actividade política e que lembra que os princípios enunciados no texto fundamental da nossa democracia continuam a agurdar cumprimento. No que diz direito à saúde, à educação, à habitação e à dignidade das condições de vida a que se tem direito pela condição humana.

Parece impossível que 130 senhores deputados, todos com estudos e todos no píncaro das mais patrióticas intenções, não sejam capazes de compreender que ninguém os elegeu, a eles ou aos partidos que representam, para se degladiarem até à morte como se lutassem pela última côdea da subsistência. Pelo contrário, todos os elegeram na perspetiva e na intenção de verem melhoradas as suas condições de vida. E essas não se atingem pelo insulto, pelo desrespeito e pela guerra até à morte, mas pelo entendimento, pelo consenso, pelas soluções a que, em conjunto e em nome dos eleitores, estão obrigados a aportar. Como o não entendem seria bom e útil que alguém lho pudesse explicar.

20 de março de 2026

A Primavera

São onze horas e vinte minutos. A Primavera, oficialmente, chega hoje, às catorze horas e quarenta e cinco minutos. Nesse momento vai extinguir-se o Inverno, deixará de chover e o vento desabrido irá serenar nos ramos do loureiro. O sol brilhará no cume do horizonte e espalhará calor pelas praças e jardins. As corolas das flores irão abrir-se para acolher o noivado que lhes virá nas asas diligentes das abelhas. Correrá bem a relação e dela nos virá o mel que nos adoçará o Verão. Todo o hemisfério Norte se concentrará no aplauso ao equinócio e ao bom tempo.

Entretanto algures, uma massa humana de um metro e noventa de altura, velha de quase oitenta anos, prosseguirá na erradicação da pobreza, suprimindo os pobres à força dos mísseis e do fuzil. Gastando à razão de doze vírgula sete mil milhões (como é que este número se escreverá?) de dólares por cada seis dias, que o sétimo é para Deus descansar.

Por mim ocupararei a Primavera a saber a taxa de câmbio, a converter aquele valor para euros e a contar o número de pobres que temos dentro de fronteiras, apesar dos heroicos discursos do governo. Para saber se o contravalor chegaria para dar a cada um uma sopa de couve penca, um par da sapatilhas e uma camisa usada, comprada na feira de Vandôma.

8 de fevereiro de 2026

Seguro e As pontes de Madison County

Há três semanas o boletim tinha uma longa lista de candidatos, incluindo mesmo alguns que o não eram e nem sequer o tinham sido. Era preciso percorrê-la nome a nome, à procura daquele que queríamos para fazer a cruz no respectivo quadradinho. Hoje não, a lista era curta, incluindo apenas um candidato e um aborto. Fiz a cruz no quadradinho do candidato, dobrei o boletim em quatro e depositei-o na caixa pousada sobre a mesa. Gracejei com quem dedicava o seu dia ao trabalho para, mais tarde, termos um novo presidente da república e regressei a casa. Para passar tempo até que, à noite, viesserm as projeções, os resultados, os comentários dos especialistas e, inevitavelmente, a vitória de todos.

Por vezes sento-me em frente à televisão e vou percorrendo os canais um a um, à procura de alguma coisa que me interesse. Um deles passava, quase no fim, o filme As pontes de Madison County cujo nome recordo sem saber se o terei visto ou não. Fui vê-lo de início e fui-me rendendo à história, à forma como é contada e à maneira superior como Clint Eastwood e Meryl Streep a contam. Não me contenho e tenho de emitir um juízo, de leigo, sem conhecimentos e sem fundamentação de nenhuma espécie. A minha amiga Salette julgar-me-á ingénuo ou ignorante, usando palavras com outro perfume, e estará no seu direito, com conhecimento de causa: é a sua casa.

Eu passei por curto período por um cine clube africano, quando todos eramos jovens e os meus amigos olhavam com reservas para o cinema comercial, o único propósito do lucro, a exploração básica das emoções do espetador e da receita de bilheteira. E eles me queriam responsabilizar pela construção de argumentos para as nossas obras primas de juventude, apenas porque eu era capaz de escrever duas linhas saídas da minha cabeça, sem hesitação e sem erros de ortografia. Mas, comercial que seja, acho que Clint Eastwood sabe muito bem contar histórias como realizador. E tem, tanto como Meryl Streep, um desempenho que, para um ignorante como eu, é de qualidade superior.

Pronto, então venha de lá António José Seguro, para tomar posse no dia 9 de Março, para ter um desempenho honesto, de homem comum e vertical, capaz de ajudar a salvar uma democracia doente e incompleta, a que faltam princípios e valores. Porque todos nós, afinal, temos alguma responsabilidade na escalada da doença, ao deixarmos escapar princípios e valores fundamentais. Temos de os recuperar, temos de consolidar a democracia, temos de construir um país menos desigual e mais justo.