Celebração pobre e triste
A Assembleia da República assinalou hoje, com uma sessão solene, os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa, aprovada naquela casa no dia 2 de Abril de 1976. Os discursos, a que tiveram direito todos os partidos com representação parlamentar, foram generalizadamente pobres de conteúdo, olhando para o tempo passado e resgatando-o do esquecimento como se fosse a única e última maravilha do mundo. Exceptuando, para muito pior, para o que é humanamente inadmissível, os discursos de dois deputados, um Núncio, sem ser apostólico e outro Ventura com quem a ventura não foi nem pródiga, nem presente. Foram dois discursos de ódio que racionalmente ninguém pode subscrever como opinião ou como liberdade de expressão, mesmo nos impérios divinos dos senhores Bokassa ou Idi Amin de muito má memória.
Mais equilibrado, mas sem
grande substância, o discurso do presidente da Assembleia da República, que se
viu confrontada com o extremismo do nazismo que impropriamente se julgou
extinto depois de 1945. E um discurso sério, equilibrado e racional,
pronunciado pelo presidente da República, António José Seguro. O único que não
vai resgatar o passado, que acha que as naturais imperfeições da constituição não
justificam os fracassos dos cinquenta anos da actividade política e que lembra
que os princípios enunciados no texto fundamental da nossa democracia continuam
a agurdar cumprimento. No que diz direito à saúde, à educação, à habitação e à
dignidade das condições de vida a que se tem direito pela condição humana.
Parece impossível que 130 senhores deputados, todos com estudos e todos no píncaro das mais patrióticas intenções, não sejam capazes de compreender que ninguém os elegeu, a eles ou aos partidos que representam, para se degladiarem até à morte como se lutassem pela última côdea da subsistência. Pelo contrário, todos os elegeram na perspetiva e na intenção de verem melhoradas as suas condições de vida. E essas não se atingem pelo insulto, pelo desrespeito e pela guerra até à morte, mas pelo entendimento, pelo consenso, pelas soluções a que, em conjunto e em nome dos eleitores, estão obrigados a aportar. Como o não entendem seria bom e útil que alguém lho pudesse explicar.



