22 de janeiro de 2023

A favor de todos os animais

Ontem, em Lisboa, a praça Marquês de Pombal encheu-se de gente a manifestar-se a favor da criminalização dos maus tratos a animais. Sempre fui sensível à causa, acho-a justa, sou solidário. E digo-o com a propriedade de quem, há dezenas de anos, derramou grossas lágrimas por, de forma ignorante, ter exposto ao sol e à morte um grilo, com uma folha de alface, dentro de uma lata vazia de graxa para sapatos. Portanto, até aqui, nem a mínima hesitação, nenhuma dúvida.

Entendo que o planeta deva ser partilhado de forma mais justa e fraterna, respeitando o direito à vida de todas as espécies animais, enquanto não for possível abarcar as vegetais e eventualmente outras. A começar pela espécie humana que, como se sabe, é racionalmente exemplar. Não há memória de que se tenha agredido ou se tenha ferido de morte, seja por que razão for, fosse quando fosse. Mas, por favor, não se esqueçam do elefante, imponente paquiderme, a que continuam roubando os dentes para o fabrico de adereços. Tão pouco da vaca, que saboreiam à posta, acompanhada de grelos e de batatas a murro e cujo couro aproveitam para não andar de calças na mão. Ou da galinha, vulgarmente considerada tonta, que gulosamente levam à mesa em arroz de pica no chão, dando estalidos com a língua. E, já agora, da minúscula e maliciosa pulga, que vos incomodou o sono e cuja vida esmagam contra a unha de um dedo polegar.

Depois, mais tarde, quando os dias forem maiores e tiver chegado o solstício de Verão, atentem na nossa espécie e dediquem-lhe cinco minutos de atenção. Invoquem as crianças, as mulheres, os homens, os mais desprotegidos que diariamente são agredidos nos mais esconsos cantos do globo e são sujeitos aos mais variados tipos de violência, a começar pela física. E são mantidos sob trabalho forçado, sem alimento, sem agasalho, sem protecção na doença, sem educação, sem nada. E convirjam para o praça do Marquês de Pombal. Eu já vou a caminho, para nos encontrarmos lá. Para lutarmos pela criminalização disso tudo e para a garantirmos. 

 

19 de janeiro de 2023

Eugénio de Andrade – 100 anos

 

Cuidai, inspirados e diligentes poetas do meu país, exímios mestres da redondilha, livre de rima e solta de métrica, que há cem anos nasceu José Fontinhas, que a sorte nos deu poeta como Eugénio de Andrade.

Em belos poemas, escreveu versos com alguma inspiração e extremo esforço, segundo o próprio deixou dito, antes do seu longo e último caminho. Com alguns passou noites em claro, burilando-lhes as arestas e moldando-lhes a forma, com a persistência do oleiro insatisfeito, até lhe bastar a pura pureza de língua e a elevada elevação da lírica.

Lede-o, um poema basta. É o mínimo que lhe devemos: divulgá-lo, aprender com ele. Celebrar-lhe o centenário e a obra intemporal e única.

18 de janeiro de 2023

Dia do sorriso

Era um sorriso fresco, campestre, como um fio de água cristalina rumorejando na fonte. Alegre e verde como a manhã e a saia da moça que levava o cântaro e o enchia. Tão natural como a esperança gaiata que ela trazia no olhar e que preenchia de sol o dia claro, quase de primavera. Tão sem neve que até ali chegava, nas asas da brisa suave, o aroma convincente das folhas do loureiro. Um sorriso tão de horizonte largo que tinha todo o mar pela frente, com as velas dos barcos alegrando o mundo. Sem armas, transbordando de certezas, chilreando como crianças no recreio. Que dia, que sorriso!



14 de janeiro de 2023

Luuanda

 O escritor Mário de Carvalho, que não conheço pessoalmente e que condescende em ser meu amigo no feicebuque, publicou na sua página, um dia destes, com a sua fina e cortante ironia, a seguinte questão:

Para os mais velhos: Amochar com o salazarismo. Como vos foi possível?

Fiz-lhe um comentário: Por mim - e seguramente pela maioria - não houve alternativa. Nunca esquecerei os problemas que o Luuanda me causou.

Retorquiu-me: Conte, conte, p.f....

Então pronto, conto.


Meus heroicos vinte anos. Do inspector Mário César Ferreira, de quem ainda por aí vai algum rasto, envergando calças e blusão de couro preto e batendo com a mão cerrada sobre o peito: eu, que sou fascista. Usando a minha verde ingenuidade para paternalmente me avisar dos malefícios das viciosas companhias e dos sólidos méritos literários e patrióticos do Dr, Amândio César. E eu jovem, de peito aberto ao sonho, mais ingénuo do que o olhar com que o fixava, completo ignorante de tudo, sem saber de nada, sem afinal conhecer ninguém. Da revista domiciliária ao quarto alugado, onde guardava uma mala de trapos e uma caixa de livros, e à noite repousava o corpo, levaram-me um livro apenas, O Mar Morto, de Jorge Amado. Escapara-me ao esmerado zelo com que previamente apartara tudo o que pudesse cheirar a subversão e a crime de lesa pátria. Para em lugar seguro poder acautelar os veículos da minha leviandade inconsciente, no mofo do fundo de um armário de caserna.

E eu, por uma vez na vida, crítico literário insuspeito e encomiástico, escrevendo sobre Luuanda no bissemanário da terra, planalto africano onde nascem os grandes rios. Já viu? O branco é sempre mau, nunca faz nada de bom. E não, eu não vira nada, aquilo tudo era eu por dentro e por fora, sem cor e sem malícia, o meu todos os dias. Tanto que, sob pseudónimo, pusera o meu Zé Sapalo, domingo à tarde, cavalgando a bicicleta Hopper a caminho dos subúrbios da Bomba, para o seu meio litro de aguardente de fabrico ilegal, para a bebedeira e para as muitas quedas no regresso a casa. O meu saudoso Emílio, de vida mais experiente e longa, na redacção, a exultar, é isto, vai para a edição de quinta-feira.

Sabe quem é o Elói Cortez? Não, não sabia, nem ouvira falar. Mas lera, uma rudimentar descrição das peripécias do Zé na sua tarde de domingo, imitando Luandino, à força recolhido ao sol do Tarrafal, arquipélago de Cabo Verde. Então pronto, tens nada com isso, escrevi, agora vou. Mas nós sabemos muito bem quem é! Sim? Então para que me perguntam? Não ficarão a saber nem mais, nem melhor do que aquilo que já sabem. Pois, você é novo, você não sabe. Mude de companhias, rodeie-se de outros valores, facilitamos-lhe os contactos. Gente sem mácula, culta, patriota, temente a Deus. Pronto, aqui tem, assine aí na última linha.

Eu ainda, ingenuamente inocente e grosso. Primeiro tenho de ler tudo. Aqui não foi assim que eu disse. E ali, e acolá também não. É preciso corrigir, fazer as ressalvas necessárias. Sim, claro, quero alterar. Pronto, agora sim, é aqui que assino? A saída, seis horas depois, às oito da noite, posso ir me embora? Como militar fora a apresentar-me com guia de marcha, vai fulano de tal, para os efeitos tidos por convenientes, apresentar-se na polícia não sei quê de defesa, etc e tal. No quartel o comandante, um coronel, recomendara-me, vens cá para me contar tudo, quero saber em que te meteste, vou ficar aqui à tua espera. Não vou para casa enquanto tu não vieres. E fui.

Perdi o Mar Morto, nunca o recuperei. Nunca conheci o Dr Amândio César e nunca senti que tivesse precisado dele. Na revista domiciliária não tinha comigo nenhum exemplar do Luuanda, da meia dúzia que mão amiga, por favor, me fizera chegar, todos tinham tido destinatário. Um pequeno livrinho, pela primeira vez, dizia as coisas numa linguagem diferente, era esse o mérito de Luandino. Que, pelo caminho, recusou o Prémio Camões e continua vivendo, creio eu, no seu exílio de Vila Nova de Cerveira. Tem oitenta e sete anos.

 

 


11 de janeiro de 2023

Obrigado

 

Obrigado

obrigado por me teres permitido ver mais um dia

ter conseguido erguer-me da cama

apesar das dores nas cruzes

e do andar cansado e trôpego

ter feito a barba para parecer de cara lavada

ter conseguido vestir um agasalho

que me protegesse da manhã fria

 


Obrigado por me teres deixado um pão

para o pequeno-almoço

e uma chávena de café quente

para me confortar o estômago vazio

enquanto olho pela janela

e vejo o sol tranquilo

esbarrondar-se pelas paredes abaixo

com os arbustos dos quintais vizinhos

já adivinhando as flores da primavera

 

Obrigado por me deixares assim

sozinho e de olhar triste

embora conformado e tranquilo.