8 de fevereiro de 2026

Seguro e As pontes de Madison County

Há três semanas o boletim tinha uma longa lista de candidatos, incluindo mesmo alguns que o não eram e nem sequer o tinham sido. Era preciso percorrê-la nome a nome, à procura daquele que queríamos para fazer a cruz no respectivo quadradinho. Hoje não, a lista era curta, incluindo apenas um candidato e um aborto. Fiz a cruz no quadradinho do candidato, dobrei o boletim em quatro e depositei-o na caixa pousada sobre a mesa. Gracejei com quem dedicava o seu dia ao trabalho para, mais tarde, termos um novo presidente da república e regressei a casa. Para passar tempo até que, à noite, viesserm as projeções, os resultados, os comentários dos especialistas e, inevitavelmente, a vitória de todos.

Por vezes sento-me em frente à televisão e vou percorrendo os canais um a um, à procura de alguma coisa que me interesse. Um deles passava, quase no fim, o filme As pontes de Madison County cujo nome recordo sem saber se o terei visto ou não. Fui vê-lo de início e fui-me rendendo à história, à forma como é contada e à maneira superior como Clint Eastwood e Meryl Streep a contam. Não me contenho e tenho de emitir um juízo, de leigo, sem conhecimentos e sem fundamentação de nenhuma espécie. A minha amiga Salette julgar-me-á ingénuo ou ignorante, usando palavras com outro perfume, e estará no seu direito, com conhecimento de causa: é a sua casa.

Eu passei por curto período por um cine clube africano, quando todos eramos jovens e os meus amigos olhavam com reservas para o cinema comercial, o único propósito do lucro, a exploração básica das emoções do espetador e da receita de bilheteira. E eles me queriam responsabilizar pela construção de argumentos para as nossas obras primas de juventude, apenas porque eu era capaz de escrever duas linhas saídas da minha cabeça, sem hesitação e sem erros de ortografia. Mas, comercial que seja, acho que Clint Eastwood sabe muito bem contar histórias como realizador. E tem, tanto como Meryl Streep, um desempenho que, para um ignorante como eu, é de qualidade superior.

Pronto, então venha de lá António José Seguro, para tomar posse no dia 9 de Março, para ter um desempenho honesto, de homem comum e vertical, capaz de ajudar a salvar uma democracia doente e incompleta, a que faltam princípios e valores. Porque todos nós, afinal, temos alguma responsabilidade na escalada da doença, ao deixarmos escapar princípios e valores fundamentais. Temos de os recuperar, temos de consolidar a democracia, temos de construir um país menos desigual e mais justo.

30 de janeiro de 2026

O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: o Livro!

Edição: Relógio d’Água

Tradução e notas: José Bento.

Gravuras: Lima de Freitas.

“E dizendo isto, e encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcineia, pedindo-lhe que naquele transe o socorresse, bem coberto pela rodela, com a lança no riste, arremeteu a todo o galope de Rocinante e investiu contra o primeiro moinho que estava à sua frente; e dando-lhe uma lançada na vela, o vento fê-la girar com tante fúria, que fez a lança em pedaços, levando atrás de si o cavalo e o cavaleiro, que rolou pela campo, muito maltratado. Sancho foi socorrê-lo, tão depressa quanto corria o seu jumento e quando chegou viu que D. Quixote não podia mover-se: tão grande fora a pancada que dera com Rocinante.”

[Capítulo III

Do êxito que o valoroso D. Quixote teve na assombrosa e nunca imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros acontecimentos dignos de feliz recordação]

 

24 de dezembro de 2025

É Natal

Há já muitos anos, nem eu já sei bem quantos, a sul do equador, não era nada disto. Não havia frio e da neve só se sabia dela pelos postais que chegavam do norte da Europa sem se acreditar muito que não pudesse derreter. Mesmo a luz era quase a mesma de todos os dias, baça e difusa, emergindo do candeeiro a petróleo pousado no peitoril da janela virada para a noite cerrada. A noite de Natal era um sacrifício, com a mesa farta e toda a gente sentada à sua volta, solene e circunspecta. A ementa não ajudava, com o bacalhau cozido importado da Noruega, como se já não houvesse carapau para secar no mar aberto de Porto Amboim. E o desperdício da batata cozida que podia aloirar-se no óleo sedutor e fervente, cortada aos palitos, na generosa frigideira pendurada por cima do fogão. Para mais, estava ainda por descobrir o fascínio da couve portuguesa, tão verde de frescura, tão tenra de folhas e de talos, aferventada em muita água e com lume forte, como só ela sabia fazer. Tão simples de fazer, tão difícil de conseguir fazer.

Depois, confortado o estômago, as pálpebras iam cedendo ao avanço da noite e ao peso do sono. A casa silenciava e o cachorro enroscava-se no seu canto. Às vezes um gato espreitava, silencioso e desconfiado, a uma das portas da sala. Minha mãe ia ao quarto do fundo buscar o alguidar onde a massa levedava há três horas e punha-o a seu lado, sobre um banco pequeno, de quatro pernas e um furo no meio. Despejava açúcar e canela num prato largo que punha sobre a mesa e empurrava-o para o meu lado. Não dizia palavra, não era preciso, eu já sabia o que tinha de fazer. Havia de enrolar na mistura cada filhós que, dourada, minha mãe retiraria da fritura e deitaria sobre um papel grosso para absorver o excesso de azeite. Uma vez por outra, ignorante e descuidado, uma ou outra iria ser submetida ao teste da prova. Seria bom sinal que me mantivesse calado, que nada dissesse. Como sempre e como em tudo na vida, só se reclama do que está mal. Nunca se enaltece o que está bem, o que merece elogio.

Nem era mais longa a noite, era só mais escura. O sol romperia o horizonte à mesma hora, indiferente às festividades e ao dia santo. Lá teria de me erguer à mesma hora de sempre, tirar a ramela dos olhos, vestir-me de camisa irrepreensivelmente branca, corada ao sol, calções de caqui e meias altas, sapatos a brilhar do esmerado brilho da graxa. Muito bem penteado, de risco ao lado, desenhado com a precisão do pente, rejeitando no cabelo levemente ondulado mais do que a água lisa da torneira. Depois talvez quinze minutos até à igreja do bairro, para a solenidade da missa e para a novidade do presépio, tão enfeitado de casinhas e de musgo, o menino muito pequenino deitado nas palhinhas como se tivesse de facto acabado de nascer. Haveria de suportar sem lamento a dor das areias sobre os joelhos de cada vez que tivesse de me ajoelhar e creio que terá sido isso a afastar-me da missa ou a deixar de usar calções. Depois haveria de vir o senhor padre, cujo nome retenho num grato canto da memória, com o menino na mão esquerda e um pequeno lenço na mão direita, a dar-nos a beijar o pé do Menino. E a passar-lhe o lenço por cima antes de o dar a beijar à pessoa seguinte, como se o desinfetasse.

10 de dezembro de 2025

Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi assinada há 77 anos. Existindo a nossa pobre raça humana há não se sabe quantos milhões de anos, o período decorrido não passa de uma fração ínfima nesse trajeto, sem qualquer expressão numérica. Mas, apesar disso, diz o sábio povo português do interior profundo e remoto: mais vale tarde do que nunca. Como também diz que vozes de burro não chegam ao céu, sem quaisquer intenções de melindrar a respeitável raça asinina ou, tão pouco, de pôr o céu ao alcance do pontapé ou do coice de qualquer um.

A declaração foi assinada no Palácio de Chaillot em Paris, França., em 10 de Dezembro de 1948, como simples manifestação de intenções sem qualquer força jurídica. A sua leitura enumera princípios tão básicos que não se entende que não possam ser aceites, que se não respeitem e que, inclusivamente, tenham levado à abstenção de uma série de subscritores. Portugal, este nosso doce torrão natal, pioneiro a escorraçar os mouros de Lisboa e a levar a evangelização ao redor do mundo, na ponta da espada e do cruxifixo, supõe-se que tenha estado na primeira linha, de bic azul em punho, impaciente por pôr o rabisco no papel. Desenganem-se, nada disso. Portugal apenas a fez publicar no Diário da República de 9 de Março de 1978, quase trinta anos depois da sua aprovação, bem após a morte do estado novo.

Mas a pátria terá sido exemplar na sua aplicação e no seu respeito, pensarão vocês, caros compatriotas, de um extremo ao outro do patriótico hemiciclo de São Bento, respeitadores de D. Afonso Henriques, tementes a Deus e a Nossa Senhora de Fátima, devotos de Aljubarrota e do Santo Condestável. Bem, não exageremos. Não tenhamos pressa. Tenhamos em conta o atávico espírito de desenrascanço português. Contemos com a atitude empreendedora do nosso zé povinho, sempre pronto para o copo de vinho e para o manguito do queres fiado, toma. Arranjemos umas propriedades no vasto Alentejo, aproveitemos o descanso de alguns voluntariosos agentes da autoridade e utilizemos a necessitada força de trabalho de imigrantes vindos lá sabe-se Deus de onde, à míngua de tudo e de comida.

Sejamos empreendedores. Acolhamos umas centenas desses imigrantes, rotos e famintos, desalojados e ao relento. Pela alvorada alinhemo-los no pátio como se fosse uma parada militar. Façamos a chamada, anotemos as faltas, mobilizemos os agentes da autoridade, vestamos-lhes a farda de capataz. Levemo-los ao trabalho de sol a sol, sem interrupção e sem descanso, em regime forçado sob vigilância apertada. Nada demais, os dias são curtos, o tempo também. Reserve-se-lhes uma côdea seca e dura para o jantar. Deixemos que se empilhem para dormir, tresandando a mijo e a suor até à madrugada. Para se alinharem na parada na alvorada seguinte.

E tenhamos sempre à mão a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Que, em versão portuguesa, está acessível aqui:

https://gddc.ministeriopublico.pt/sites/default/files/documentos/pdf/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pdf

Gratuitamente!

24 de novembro de 2025

Este país não é para velhos. Nem para novos.

Das notícias:

Em Março passado havia, ocupando camas em hospitais, 832 pessoas a que tinha sido dada alta clínica e que aguardavam vaga para alojamento num lar. Algumas esperavam há mais de quatro anos.

Nós vivemos, desde o tempo da pátria una e indivisível, do Minho a Timor, à sombra de governos patrióticos que se sacrificam dia a dia para que nós, cidadãos, não tenhamos carências básicas e sejamos felizes. Do doutor António de Oliveira Salazar ao doutor Luís Esteves Montenegro, da casota na aldeia do Vimieiro ao casebre de seis pisos e elevador na Rua Oito.

Agora vocês acham que um governo, seja ele qual for, rural ou cosmopolita, que em quatro anos não é capaz de alojar um velho num lar adequado é capaz de contratar um médico para uma urgência hospitalar? Ou para o serviço nacional de saúde? Bem, então vocês também acreditam que o simpático e saudoso Clube de Futebol Os Belenenses, ali do Restelo, vai ganhar a Premier League este ano, tendo o Matateu como ponta de lança e o nosso D. Sebastião como ferveroso adepto na primeira fila da bancada.

Os governos, especialmente os patrióticos, pensam em grande, não perdem tempo com merdices. Viajam em avião próprio para a Amazónia, a salvar o planeta do bióxido de carbono que nos arranha a garganta quando bebemos Coca Cola. E aproveitam para dar um salto a Luanda para extirpar  o racismo da face da terra e prometer para amanhã mais contentores de lixo nas ruas, onde os pedintes e vadios possam vasculhar um resto de pão para enganar a puta da fome. Acompanhados das insispensáveis mordomias e das comitivas solidárias que couberem no avião. Os velhos? Ora, que se fodam!