Porque hoje é dia da Mãe
Hoje é o primeiro domingo do mês de Maio do ano de dois mil e vinte e seis. Um dia de primavera, que amanheceu nublado, sem vento, deixando tombar uma chuva fraca, inesperada, que não promete resistir muito à marcha silenciosa do relógio. É um dia sereno, tranquilo, uma estante encostada a uma das paredes da sala, esperando pelos raios de sol.
Um repositório de memórias,
uma invocação de dias passados, uma peregrinação pelo tempo. Tão longo tempo
que tudo me parece eterno, sábias palavras saindo-te serenamente desse sorriso
espontâneo com que enfrentas cada momento. Sorvo as histórias como se as não
conhecesse, como se as ouvisse pela primeira vez, como se elas viessem do princípio
do mundo para me trazer a esperança que o presente não promete a ninguém.
Junto à chada a mesma
estrada desce para o centro da aldeia, sem lama, sem buracos e sem carros de
bois. Negra, da cor do asfalto que a cobre, levando a locais distantes que conheces
de cor e de que eu apenas ouvi o nome. A casa desapareceu e quase não há
escombros que resistam. Apenas uma figueira espeta os ramos no céu vazio, no
meio de esparsas oliveiras que vão resistindo a tudo, vendo definhar as velhas
cepas abafadas pelos anos de abandono e de pousio.
Aflora-me à face um sorriso triste e a heroica valentia de tua mãe, serenamente devota, esforçadamente digna. Dando a cada filho uma sardinha sobre uma magra fatia de broa, e meu padrinho reclamando da que lhe coubera. Não porque fosse pequena, não porque estivesse mal assada, mas apenas porque era torta. Ao sorriso junta-se-me uma lágrima melancólica. E rio-me. Ao pobre, quando lhe cabe uma sardinha não é, sequer, uma sardinha normal, tem de ser uma sardinha defeituosa, torcida na confusão da rede, torta.
Hoje vou contigo, a pé,
correndo atrás de ti, serra acima, à procura da azinheira na Cova da Iria. De vestido
de chita, tiritando de frio, suando de excitação, até chegar ao cimo do monte
onde, à volta dos bajancos de água, se amontoam pessoas olhando para as nuvens,
à procura do sol. Confundindo-se com as pedras e com as azinheiras que dão
alguma esperança à paisagem árida, em cujos ramos crescem as bolotas perfeitas
aguardando o Verão.
Eram-te gratas estas
memórias humildes que me embaciam os olhos e que me ardem no peito. Para te
dizer tão simplesmente que estás aqui comigo. Hoje, num dia que consagram a
todas as Mães. Todos os dias que são, como este, o dia de minha Mãe.



