2 de abril de 2026

Celebração pobre e triste

A Assembleia da República assinalou hoje, com uma sessão solene, os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa, aprovada naquela casa no dia 2 de Abril de 1976. Os discursos, a que tiveram direito todos os partidos com representação parlamentar, foram generalizadamente pobres de conteúdo, olhando para o tempo passado e resgatando-o do esquecimento como se fosse a única e última maravilha do mundo. Exceptuando, para muito pior, para o que é humanamente inadmissível, os discursos de dois deputados, um Núncio, sem ser apostólico e outro Ventura com quem a ventura não foi nem pródiga, nem presente. Foram dois discursos de ódio que racionalmente ninguém pode subscrever como opinião ou como liberdade de expressão, mesmo nos impérios divinos dos senhores Bokassa ou Idi Amin de muito má memória.

Mais equilibrado, mas sem grande substância, o discurso do presidente da Assembleia da República, que se viu confrontada com o extremismo do nazismo que impropriamente se julgou extinto depois de 1945. E um discurso sério, equilibrado e racional, pronunciado pelo presidente da República, António José Seguro. O único que não vai resgatar o passado, que acha que as naturais imperfeições da constituição não justificam os fracassos dos cinquenta anos da actividade política e que lembra que os princípios enunciados no texto fundamental da nossa democracia continuam a agurdar cumprimento. No que diz direito à saúde, à educação, à habitação e à dignidade das condições de vida a que se tem direito pela condição humana.

Parece impossível que 130 senhores deputados, todos com estudos e todos no píncaro das mais patrióticas intenções, não sejam capazes de compreender que ninguém os elegeu, a eles ou aos partidos que representam, para se degladiarem até à morte como se lutassem pela última côdea da subsistência. Pelo contrário, todos os elegeram na perspetiva e na intenção de verem melhoradas as suas condições de vida. E essas não se atingem pelo insulto, pelo desrespeito e pela guerra até à morte, mas pelo entendimento, pelo consenso, pelas soluções a que, em conjunto e em nome dos eleitores, estão obrigados a aportar. Como o não entendem seria bom e útil que alguém lho pudesse explicar.

20 de março de 2026

A Primavera

São onze horas e vinte minutos. A Primavera, oficialmente, chega hoje, às catorze horas e quarenta e cinco minutos. Nesse momento vai extinguir-se o Inverno, deixará de chover e o vento desabrido irá serenar nos ramos do loureiro. O sol brilhará no cume do horizonte e espalhará calor pelas praças e jardins. As corolas das flores irão abrir-se para acolher o noivado que lhes virá nas asas diligentes das abelhas. Correrá bem a relação e dela nos virá o mel que nos adoçará o Verão. Todo o hemisfério Norte se concentrará no aplauso ao equinócio e ao bom tempo.

Entretanto algures, uma massa humana de um metro e noventa de altura, velha de quase oitenta anos, prosseguirá na erradicação da pobreza, suprimindo os pobres à força dos mísseis e do fuzil. Gastando à razão de doze vírgula sete mil milhões (como é que este número se escreverá?) de dólares por cada seis dias, que o sétimo é para Deus descansar.

Por mim ocupararei a Primavera a saber a taxa de câmbio, a converter aquele valor para euros e a contar o número de pobres que temos dentro de fronteiras, apesar dos heroicos discursos do governo. Para saber se o contravalor chegaria para dar a cada um uma sopa de couve penca, um par da sapatilhas e uma camisa usada, comprada na feira de Vandôma.

8 de fevereiro de 2026

Seguro e As pontes de Madison County

Há três semanas o boletim tinha uma longa lista de candidatos, incluindo mesmo alguns que o não eram e nem sequer o tinham sido. Era preciso percorrê-la nome a nome, à procura daquele que queríamos para fazer a cruz no respectivo quadradinho. Hoje não, a lista era curta, incluindo apenas um candidato e um aborto. Fiz a cruz no quadradinho do candidato, dobrei o boletim em quatro e depositei-o na caixa pousada sobre a mesa. Gracejei com quem dedicava o seu dia ao trabalho para, mais tarde, termos um novo presidente da república e regressei a casa. Para passar tempo até que, à noite, viesserm as projeções, os resultados, os comentários dos especialistas e, inevitavelmente, a vitória de todos.

Por vezes sento-me em frente à televisão e vou percorrendo os canais um a um, à procura de alguma coisa que me interesse. Um deles passava, quase no fim, o filme As pontes de Madison County cujo nome recordo sem saber se o terei visto ou não. Fui vê-lo de início e fui-me rendendo à história, à forma como é contada e à maneira superior como Clint Eastwood e Meryl Streep a contam. Não me contenho e tenho de emitir um juízo, de leigo, sem conhecimentos e sem fundamentação de nenhuma espécie. A minha amiga Salette julgar-me-á ingénuo ou ignorante, usando palavras com outro perfume, e estará no seu direito, com conhecimento de causa: é a sua casa.

Eu passei por curto período por um cine clube africano, quando todos eramos jovens e os meus amigos olhavam com reservas para o cinema comercial, o único propósito do lucro, a exploração básica das emoções do espetador e da receita de bilheteira. E eles me queriam responsabilizar pela construção de argumentos para as nossas obras primas de juventude, apenas porque eu era capaz de escrever duas linhas saídas da minha cabeça, sem hesitação e sem erros de ortografia. Mas, comercial que seja, acho que Clint Eastwood sabe muito bem contar histórias como realizador. E tem, tanto como Meryl Streep, um desempenho que, para um ignorante como eu, é de qualidade superior.

Pronto, então venha de lá António José Seguro, para tomar posse no dia 9 de Março, para ter um desempenho honesto, de homem comum e vertical, capaz de ajudar a salvar uma democracia doente e incompleta, a que faltam princípios e valores. Porque todos nós, afinal, temos alguma responsabilidade na escalada da doença, ao deixarmos escapar princípios e valores fundamentais. Temos de os recuperar, temos de consolidar a democracia, temos de construir um país menos desigual e mais justo.

30 de janeiro de 2026

O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha: o Livro!

Edição: Relógio d’Água

Tradução e notas: José Bento.

Gravuras: Lima de Freitas.

“E dizendo isto, e encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcineia, pedindo-lhe que naquele transe o socorresse, bem coberto pela rodela, com a lança no riste, arremeteu a todo o galope de Rocinante e investiu contra o primeiro moinho que estava à sua frente; e dando-lhe uma lançada na vela, o vento fê-la girar com tante fúria, que fez a lança em pedaços, levando atrás de si o cavalo e o cavaleiro, que rolou pela campo, muito maltratado. Sancho foi socorrê-lo, tão depressa quanto corria o seu jumento e quando chegou viu que D. Quixote não podia mover-se: tão grande fora a pancada que dera com Rocinante.”

[Capítulo III

Do êxito que o valoroso D. Quixote teve na assombrosa e nunca imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros acontecimentos dignos de feliz recordação]

 

24 de dezembro de 2025

É Natal

Há já muitos anos, nem eu já sei bem quantos, a sul do equador, não era nada disto. Não havia frio e da neve só se sabia dela pelos postais que chegavam do norte da Europa sem se acreditar muito que não pudesse derreter. Mesmo a luz era quase a mesma de todos os dias, baça e difusa, emergindo do candeeiro a petróleo pousado no peitoril da janela virada para a noite cerrada. A noite de Natal era um sacrifício, com a mesa farta e toda a gente sentada à sua volta, solene e circunspecta. A ementa não ajudava, com o bacalhau cozido importado da Noruega, como se já não houvesse carapau para secar no mar aberto de Porto Amboim. E o desperdício da batata cozida que podia aloirar-se no óleo sedutor e fervente, cortada aos palitos, na generosa frigideira pendurada por cima do fogão. Para mais, estava ainda por descobrir o fascínio da couve portuguesa, tão verde de frescura, tão tenra de folhas e de talos, aferventada em muita água e com lume forte, como só ela sabia fazer. Tão simples de fazer, tão difícil de conseguir fazer.

Depois, confortado o estômago, as pálpebras iam cedendo ao avanço da noite e ao peso do sono. A casa silenciava e o cachorro enroscava-se no seu canto. Às vezes um gato espreitava, silencioso e desconfiado, a uma das portas da sala. Minha mãe ia ao quarto do fundo buscar o alguidar onde a massa levedava há três horas e punha-o a seu lado, sobre um banco pequeno, de quatro pernas e um furo no meio. Despejava açúcar e canela num prato largo que punha sobre a mesa e empurrava-o para o meu lado. Não dizia palavra, não era preciso, eu já sabia o que tinha de fazer. Havia de enrolar na mistura cada filhós que, dourada, minha mãe retiraria da fritura e deitaria sobre um papel grosso para absorver o excesso de azeite. Uma vez por outra, ignorante e descuidado, uma ou outra iria ser submetida ao teste da prova. Seria bom sinal que me mantivesse calado, que nada dissesse. Como sempre e como em tudo na vida, só se reclama do que está mal. Nunca se enaltece o que está bem, o que merece elogio.

Nem era mais longa a noite, era só mais escura. O sol romperia o horizonte à mesma hora, indiferente às festividades e ao dia santo. Lá teria de me erguer à mesma hora de sempre, tirar a ramela dos olhos, vestir-me de camisa irrepreensivelmente branca, corada ao sol, calções de caqui e meias altas, sapatos a brilhar do esmerado brilho da graxa. Muito bem penteado, de risco ao lado, desenhado com a precisão do pente, rejeitando no cabelo levemente ondulado mais do que a água lisa da torneira. Depois talvez quinze minutos até à igreja do bairro, para a solenidade da missa e para a novidade do presépio, tão enfeitado de casinhas e de musgo, o menino muito pequenino deitado nas palhinhas como se tivesse de facto acabado de nascer. Haveria de suportar sem lamento a dor das areias sobre os joelhos de cada vez que tivesse de me ajoelhar e creio que terá sido isso a afastar-me da missa ou a deixar de usar calções. Depois haveria de vir o senhor padre, cujo nome retenho num grato canto da memória, com o menino na mão esquerda e um pequeno lenço na mão direita, a dar-nos a beijar o pé do Menino. E a passar-lhe o lenço por cima antes de o dar a beijar à pessoa seguinte, como se o desinfetasse.