1 de junho de 2022

Dia internacional da criança

 

Princípio 1.º

A criança gozará dos direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão reconhecidos a todas as crianças sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra da criança, ou da sua família, da sua origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou de qualquer outra situação.

 Princípio 2.º

 A criança gozará de uma protecção especial e beneficiará de oportunidades e serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.



Alguma coisa não bate certo!



1 de maio de 2022

Mãe

 

A estrada de terra batida chegava ao bairro vinda de longe, já cansada do caminho. E ali se aquietava um pouco, numa curva suave e longa, antes de seguir para mais longe, para o Kuando ou para o Bailundo. De um lado debruando a margem da mata de eucaliptos, do outro limitando o casario que se ia estendendo para o pequeno ribeiro que, ainda distante, corria entre o caniço. Era numa casa térrea que funcionava a escola primária, repartindo o quadro preto da sala de aulas com o balcão da loja ao lado, onde um barril de vinho repousava sobre o balcão, aguardando a abertura da torneira e o enchimento do copo de vidro.

Ali tive uma carteira de madeira – sim, de madeira, talvez mesmo de girassonde – com um tampo suavemente inclinado, que se levantava, com um tinteiro a meio e dois rasgos para os lápis de cada um dos lados. O tinteiro era regularmente abastecido de tinta e, como os outros, utilizei para as minhas primeiras letras uma pena de madeira em cuja ponta se encaixava um aparo metálico que se mergulhava no tinteiro para o alimentar, sempre que isso era necessário. Faculdade minha, nunca sujei os dedos com tinta, nunca esborratei o papel e com alguma facilidade me habituei a desenhar regularmente as letras e a fazê-las redondas e agradáveis à vista. Sem erros no ditado e sem rasuras nas cópias e nas contas.


Foi assim e ali que aprendi a desenhar-te o nome, numa letra redonda e limpa que a professora me elogiava. E foi assim que fui pondo em cada letra o brilho tranquilo do teu olhar, a suavidade do teu sorriso envergonhado, a humildade magnânima de teu feitio e do teu avental de riscado. Mesmo contigo distante de mim, é esse prazer lúdico que conservo: sentir nos dedos o toque único da primeira pena, depor em cada letra o alto sentido do meu amor que vem de sempre. Tanto fui aprendendo com tanta gente e mais ainda tenho para aprender com outra tanta. Mas foi ali que eu aprendi a escrever, num cursivo redondo e limpo, a palavra MÃE. Para dizer-to hoje!

27 de abril de 2022

Um amor para sempre

 

Vi-te de relance sob a luminosidade da manhã de Abril, como raio que incendiasse o sol. Regressei com o olhar à silhueta do teu corpo esguio e deixei-o percorrê-lo lentamente, ponto a ponto. A forma longilínea, o perfil esbelto, a perfeição desenhada com o rigor de mestre. Tomei-te inteira em minhas mãos, com o carinho de quem toma nos braços a delicadeza frágil de um primeiro filho. Deslumbrei-me, sem pestanejar e não me cansei de te percorrer a elegância e o silêncio quieto. É assim o fascínio.

Acaricio-te lenta e repetidamente, não sei quantas vezes, sem nenhum enfado, sempre uma vez mais. E por uma atrevo-me, há uma capa preta, debruada a ouro, a cobrir-te o dorso, que te oculta o brilho dos olhos, como se ameaçasse afastar-te para longe de mim. Uma pequena estrela, certa e regular, enfeita-te a testa, imóvel e superior ao pescoço longo e esguio. Retiro-ta com um golpe único e certeiro, sem nada de intempestivo, sem sinal de grosseria. Por ti, nem reages, nem um gesto ou um sorriso, nada. Persistem a elegância contida, o silêncio cúmplice, a expectativa das cenas ainda por vir.

Deponho descuidadamente a capa sobre a mesa e isso te exibe a plena nudez do tronco erecto. Sem uma ruga, macia, indiferente à profundeza do olhar com que te julgo a forma lúbrica do corpo. Estendo a mão direita, aquela com que melhor desenho todas as palavras que não sei se te direi. Sobre a mesa, também, a brancura cândida que lhe cobre o tampo, lençol por estrear das núpcias por que esperas desde sempre. Enlaço-te pela cintura fina, suavemente, como se à sala chegassem os acordes melódicos de uma valsa. Parece-me que te descubro um trejeito breve sob as pálpebras e uma certeza húmida chega ao tom róseo dos teus lábios. Não resistes, deixas-te levar.

Rodopiamos com passos rápidos e certos sobre a brancura virgem do lençol de linho. Um arabesco, duas voltas, uma pausa. A marcação do compasso ternário, como se ambos fossemos um rio azul, doce e tranquilo, correndo sob as pontes, tecendo as margens. Na ponta dos dedos sinto o calor morno e sensual do teu corpo nu, as palavras que se desenham com paixão em cada linha. E umas sobre as outras vão arrumando a estrofe, tamborilando a métrica na síncope das sílabas, descobrindo a rima no ritmo harmónico do sussurro. Construindo o poema seguro e certo com o rigor da estrela que te veste a fronte, estilizada paixão de adolescência.



Montblanc, uma paixão de adolescente. Um amor para sempre.

10 de fevereiro de 2022

A contar os votos

 

Então é assim. O presidente Marcelo decidiu, falou e eu vi o telejornal. Percebi que no dia 30 de Janeiro havia eleições. Mandei uma mensagem de telemóvel para o número 3838. Responderam-me. Local de voto: Escola Aurélia de Sousa, Rua Aurélia de Sousa 40. No dia 30 fui. Deram-me um boletim de voto que tinha o comprimento de meio rolo de papel higiénico. Não tinha nomes de candidatos nem a primeiros-ministros, nem a deputados, nem a chefes de turma, nem a nada. Demorei meia hora à procura do emblema que se parecesse com o meu União da Kalumanda, fiz uma cruz, dobrei em quatro, meti no caixote. Disse continuação de bom trabalho, vim-me embora, fui almoçar, dieta mediterrânica.

À noite as eleições acabaram, fecharam as urnas, foram contar os votos, só para saber o resultado. Quem tinha ganho, já todas as sondagens tinham dito, faltava só mesmo vir o Marques Mendes dizer que estava certo e era patriótico, glorificar o país, convocar para levar a coroa de flores para o túmulo do Afonso Henriques, alugar o autocarro. O resultado era de 117 a não sei quantos, mas faltavam ainda quatro minutos dos descontos, penso eu que era, que de política só sei os cinco violinos e, além deles, o Eusébio da Silva Ferreira.

Agora hoje ouço que afinal os minutos de desconto ainda não acabaram, o resultado certo ainda se não sabe, também ainda se não sabe exactamente quem são os 230 deputados, os resultados ainda não foram publicados, parece que só para a semana. E só depois disso é que a assembleia será instalada com os seus 230 deputados, novos, engravatados e patriotas. E elegerá entre pares o presidente, os vice-presidentes, os secretários, esses cargos que até o Benfica e a União da Kalumanda têm. E então quem me explica isso que eu, matumbo regressado do mato das ex-colónias – dignos palopes sem culpa nenhuma – não entendo.



Então a eleição ainda não acabou, os votos ainda não foram todos contados, ainda se não sabe quem são todos os 230 deputados, os resultados ainda não foram publicados e estes, coitados e sem ajudas de custo, já trabalharam tanto? Já indigitaram deputados para cargos. Já os recusaram. Já indigitaram outros. Já voltaram a rejeitá-los por voto secreto. Já correram nus atrás do Costa na praia do Meco, com as ideias ao dependuro atrapalhando-lhes o passo. Já deram a volta ao sol e já se alinham na campanha para a reeleição. Ora porra!

Então o Marques Mendes ainda está na sala, sentado na cadeira, a tentar chegar com os pés ao chão e já o Marquês expulsa os jesuítas dos anéis de Saturno, mandando-os para lá de Plutão? Este país é mesmo muito à frente, não há universo que lhe escape!

 

27 de dezembro de 2021

Biografias e mulheres romancistas

 De quase nada a quase rei

Gosto de biografias e não as considero literatura menor. São até bem exigentes no que respeita aos dados históricos que utilizam, mesmo quando romanceadas. Este ano trouxe-nos uma, a meu ver, perfeitamente excepcional, de José Cardoso Pires, um escritor maior da língua portuguesa, tão maltratado em vida e tão ignorado depois de morto.

Quase com o ano a extinguir-se completo a leitura da de Sebastião José. Um homem que marcou o século XVIII português – tendo chegado até mais longe – como executor político do mandato de D. José I. Controverso e contraditório, foi todo poderoso até que lhe falecesse o amo e acabasse os seus dias no desterro de Pombal. Os dias do seu longo governo continuam presentes, na bela baixa pombalina erguida depois do terramoto e no beco do chão salgado onde os Távoras foram supliciados.

Desta biografia – e pessoalmente não li outras – ressalta o profundo trabalho de investigação, que varre as suas passagens por Soure, Londres e Viena, antes de regressar ao país e de ascender ao poder. Que depois é, a meu ver, desperdiçado no propósito de revelar o homem manipulador, sem escrúpulos e tirano que, mesmo tendo enriquecido, não passou nunca do fidalgote, depreciativamente olhado nos corredores da corte. Mas foi assim e foi mais do que assim. Tão pouco ele terá sido apenas o natural responsável pela reconstrução de Lisboa – ele, que era o poder – ou pela execução dos Távoras e do jesuíta Malagrida.


Paulina Chiziane – uma aproximação

A surpresa do prémio Camões com que foi distinguida, – não venceu, inexactos utilizadores da língua portuguesa, o prémio não é um concurso de pesca! – especialmente por me ser de todo desconhecida. E negativa, por preconceituosa, a insistente referência a ser a primeira mulher moçambicana a escrever um romance. Porque afinal isso é tão natural como José Craveirinha ter escrito um poema nacionalista ou Mia Couto ter escrito um conto e “inventado” um novo adjectivo, tenha ele sido o primeiro ou o vigésimo romance.

“Balada de amor ao vento” liberta alguns laivos de um certo realismo mágico, alguma assimilada – passe a expressão, sem propósito depreciativo – cultura europeia e, acima de tudo, a pureza e a ingenuidade de um continente como África. O que faz da aproximação uma agradável surpresa, a seguir com outros títulos da autora das margens do Índico, que me traz alguma da originalidade que, como leitor, procuro sempre.