14 de outubro de 2021

Uma abelha na chuva

Por hábito, lançou os olhos às colmeias, que lhe ficavam mesmo em frente, dez ou doze metros, se tanto, e viu uma abelha voar da Cidade Verde. Baptizava as colmeias conforme as cores de que as pintara, Cidade Verde, Cidade Azul, Cidade Roxa. A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.



[Carlos de Oliveira, in “Uma abelha na chuva”. Um grande escritor, uma obra de referência na literatura portuguesa do século XX.]

 

12 de setembro de 2021

Duas lágrimas públicas por Jorge Sampaio

 

Quando em 1989 o Dr. Jorge Sampaio foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, a revista do jornal Expresso dedicou-lhe um extenso trabalho. Até aí eu não teria ouvido mais do que o seu nome e não sabia da pessoa coisa nenhuma. E desse trabalho jornalístico retive dois pequenos detalhes: o rigor com que, em casa dos seus pais, a mãe impunha o uso da língua inglesa e a conclusão do Expresso de que ele seria demasiado honesto para o cargo para que fora eleito.



Até há três dias o Dr. Jorge Sampaio foi tudo o que se sabe. E, de há três dias para cá, foi mais um conjunto de detalhes que, nas circunstâncias da sua morte, vieram a público. Como o caso de, enquanto Presidente da República, ter visitado uma recôndita aldeia do concelho de Baião e ter tido conhecimento de duas irmãs gémeas, com dez anos de idade, forçadas a abandonar os estudos por falta de transporte e de possibilidades financeiras da sua família. Prometeu resolver a questão, resolveu-a, as irmãs voltaram à escola e ele fez questão de acompanhá-las durante anos.

Nestes três dias foram unânimes as declarações de figuras proeminentes, salientando a morte de “um homem bom”. Circunstância rara porque, infelizmente, poucos são os homens bons que partilham connosco os seus dias, os seus anseios, as suas inquietações e os seus sonhos. Notáveis, a meu ver, as palavras da declaração do Presidente da República, pronunciadas após o conhecimento da morte. Por mim, aqui e agora, duas lágrimas públicas de admiração e de reconhecimento.

 

9 de setembro de 2021

Mãe: catorze anos!

Mãe: catorze anos. Cada vez mais tão longa ausência para cada vez mais tão curtos passos!



20 de junho de 2021

Alcácer Quibir - Versão 2.0

 

El-rei Dom Sebastião, por alcunha o Desejado (e também o Adormecido), herdeiro do trono de Portugal e dos Algarves aos três anos de idade, ocupou-o e assumiu responsabilidades governativas com a madura idade de catorze, depois de ter deixado as fraldas e a protecção da regência de sua avó, D. Catarina de Áustria e, depois, de seu tio-avô o Cardeal Henrique de Portugal. Aluno brilhante das ciências da guerra e do mata-mouros, el-rei desapareceu em combate, aliado ao sultão Mulei Maomé, à frente de um glorioso exército de cerca de 24.000 homens e de 40 (quarenta, por extenso) canhões, no norte de Marrocos, perto da cidade de Alcácer-Quibir, entre Tânger e Fez, a 4 de Agosto de 1578, em plena época  estival e com as praias pejadas de banhistas, de guarda-sóis e de vendedores de bolas de Berlim.

Até ontem, infelizmente, não tinham as condições meteorológicas facilitado a formação do cerrado nevoeiro que permitisse o regresso a casa de el-rei, centenariamente saudoso dos mimos das amas e do bucolismo da Tapada de Mafra. Depreendia-se, e teve-se finalmente a certeza, que el-rei teria sido traído, no chinfrim da peleja, por qualquer defeito de fabrico na rica armadura que envergava para a batalha, ricamente tecida em organdi azul e debruada a fio de nastro lilaz de qualidade extra, expressamente fabricada e fornecida pelos celebrados armazéns Harrods, de Knightsbridge, Londres. Do mesmo modo tinham, até à data, resultado infrutíferas todas as tentativas para exumar Dom Afonso Henriques do seu descansado túmulo em Santa Cruz de Coimbra, no sentido de investigar antecedentes e de apurar responsabilidades que justificassem a tragédia Castro e a perda da independência para Castela de onde, como se sabe, não sopra nem bom vento nem bom casamento.



Finalmente, por imprevisibilidades do sorteio e de uma peste pandémica, el-rei surgiu ontem na capital bávara de Munique, à frente de uma garbosa esquadra de infantes, capazmente coadjuvado pelo ilustre engenheiro Fernando, nobre e digno descendente de el-rei com a mesma graça que, em idos de Março, foi o mestre-de-obras da inexpugnável muralha que ainda hoje protege o inóspito monte da Penaventosa e a viela do anjo, de onde houve nome Portugal. Imponente e verdejante era o novo campo de batalha, ricamente engalanado para o torneio, com faixas de cores garridas e áudio quadrifónico, com o potenciómetro demasiado aberto, que muito dificultou a audição do silvo do apito e das comunicações wi-fi do var. E correu tudo mal, que o mesmo é dizer que correu tudo bem para o exército inimigo, que não teve sequer que empenhar-se a fundo para levar de roldão e por arrastamento, pela segunda vez, sem apelo nem agravo, el-rei, o seu intrépido condestável, os chefes de quina e os lusitos de olhos esbugalhados de espanto e tementes a Deus.

Está el-rei desaparecido de novo, perdido no ardor da peleja, batendo-se com a sábia e valerosa valentia dos seus maduros catorze anos, e o facto comunicado às autoridades competentes, que prosseguem as buscas por terra, mar e ar, de dia e de noite, sejam quais forem as previsões do tempo, a sorte das cartas, os juízos dos astrólogos e os conselhos dos cartomantes. De emergência foram convocados ao vale do Jamor os restos mortais dos senhores Galileu Galilei e Albert Einstein que, de repente, descobriram a quadratura do círculo e detectaram a inclinação de um cagagésimo de grau no terreno de jogo, igualmente afunilado apenas num dos sentidos e sem sinais de trânsito que o assinalassem. Sua excelência o regente do reino deserto, inquirido sobre o seu estado de espírito à saída da missa de domingo, depois da comunhão e da vacina, proferiu apenas, com ar compungido e penitente, um expressivo e erudito “puta que pariu” e seguiu para um dos restaurantes do Guincho, onde já o esperava um numeroso grupo de deserdados do BES. Por avaria no cabo submarino não é ainda conhecida a reacção de Boliqueime e estão desactualizadas as cotações do bolo-rei na bolsa da Malveira.

 

10 de abril de 2021

Política e justiça

 

Até ontem a política descredibilizara-se progressivamente, ao longo dos anos. As taxas de abstenção foram subindo com cada acto eleitoral e os candidatos foram sendo eleitos pelas suas famílias genéticas e partidárias, assobiando para o lado e mantendo o olho atento sobre os saldos crescentes das suas contas bancárias. Nunca se questionando nem sobre o aumento da abstenção nem sobre a representatividade dos votos expressos.



A partir de ontem a justiça acompanha a política no mesmo pântano em que ambas chafurdam. Não porque um só juiz tenha, ao longo de mais de treze resmas de papel e de 6728 páginas, escolhido uma elite de 5 arguidos entre um universo de 28. Tão pouco porque somente tenha selecionado os dezassete melhores crimes entre um largo cabaz de 189. Mas pelo que isso literalmente significa.

Entre prisões preventivas, prisões domiciliárias, termos de identidade e residência e quejandos, o processo, as investigações, as buscas, as diligências internacionais, a instrução e a acusação do ministério público levam mais de seis anos. E não foram monopólio de apenas dois juízes e de um só procurador; envolveram seguramente inúmeros especialistas, investigadores, amanuenses e auxiliares. Madraços, negligentes, incompetentes, bêbados e absolutamente inúteis. Nenhum deles foi capaz de concluir que um crime prescrevera, que uma escuta fora realizada sem despacho de autorização, que um flagrante se constatara pelo buraco da fechadura!